terça-feira, 17 de julho de 2012

Dom da repressão



Educação: um tema que nunca sai dos nossos diálogos. Na escola, na igreja, na mídia, no bar... não existe lugar para se falar em educação. Já me peguei um dia falando de "educação" em um hospital, num velório, durante um culto religioso; mas por que o homem insiste em falar nesse assunto? Afinal, não há nada de novo no tema, se formos pensar por um viés popular. Mas, o que eu quero falar hoje aqui não é sobre a educação em si, mas sim, algo que permeia e nossa a educação, talvez permeou a minha, permeia a sua, e vai permear a dos nossos filhos. 
Imagine uma criança sem malícia nenhuma em seu peito. Limpíssima, alma de brilho intenso. Mas logo é colocada dentro de um vaso. Este vaso possui tintas diversas, umas mais finas, outras grossas, outras claras ou escuras... a criança de branca vira um emaranhado de cores. Como sabemos, as cores possuem personalidade, o azul transmite tranquilidade, enquanto o preto luto (para os orientais o luto é branco...), as cores da alegria são amarelo, vermelho... e logo este novo ser vai se delineando nessas cores. A criança nasce limpa, mas a cultura vai imprimindo na sua personalidade o que se deve ser, ou não ser. Em minhas divagações filosóficas fico refletindo sobre essas questões, e cheguei a mais uma nova indagação: somos seres programados? será o que somos, quanto a nossas características, seres inatos? Pensando e repensando, talvez não. Quem é que nos deixa preconceituosos? Onde percebemos o caminho da "verdade" e o da "não-verdade? A resposta é simples: a herança cultural.
Só pela carga cultural que carregamos nas costas desde nossa concepção materna é que nos tornaremos os sujeitos que somos. O contato com a voz da mãe, o primeiro contato visual com o mundo, as primeiras palavras... são elementos que nos forjam dentro da cultura no qual estamos imersos.
Mas, o que tudo isso tem haver com "educação"? tudo isso também é educação. Uma educação para a vida, que forja a vida, que faz com que eu seja eu e você seja você, nos assumindo como sujeitos. No entanto, não é isso que queremos tratar aqui.
Mas o que acontece mesmo em termos de educação é a "repressão". Nossos sentidos desde cedo foram condicionados a querer apenas um tipo de coisa, uma concepção unívoca, um caminho a seguir... Por que rotular os caminhos como correto e errado? o que mesmo determina que algo será ruim ou bom? se formos investigar, no fundo de cada concepção de coisa certa está aquilo que valora a vida, ou seja, se não proporciona a vida não pode ser considerado o correto, o aceitável. Isso tem um fundo de razão. É preciso que a vida possa ser valorizada para que o ser humano possa caminhar, existir e compartilhar experiências, forjando outros homens. Mas nos esquecemos que nessa nossa caminhada, enquanto forjamos homens, estamos pregando a pedagogia da repressão. Por mais que se diga "pregamos a democracia", "todas as vozes possuem vez", nesses mundos imaginários sempre haverão pequenas vozes não ouvidas, insignificantes. Mas existe uma onda ainda pior, algo que não se perdoa. Não se pode nem enunciar, mas todos nós estamos fadados a isso, e esta lástima reside no nosso subconsciente. É algo que nem a maior eloquência na escrita poderá lhe transmitir. E talvez nem seja preciso.
O ser humano possui um verdadeiro dom para a repressão. Dom de calar a voz até do mais falante. De quebrar o passo do mais andarilho, de apagar o fogo do mais ardente. Enfim, de ofuscar o brilho de uma felicidade. Não é preciso dizer mais nada, pois eu e você temos esse dom.


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Que o teu sim seja sim; e o teu não seja não. (Mt 5,35)