sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ao falar em poesia...


“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
Autopsicografia - Fernando Pessoa

           
Falar é só o que nós sabemos fazer o tempo inteiro. A verbalização é o meio mais eficaz de sobrevivência do ser humano, sem ela estaríamos fadados ao completo caos. E no meio de tantos falares, de tantas verbalizações, de gritos altamente sonoros, de sussurros, de bradações, exclamações; enfim, nesse urro intenso emanado da cabeça e do coração do homem algo surge como o grotesco, inanimado, mas tido como supremo... fonte das mais belas expressões ou dúvidas: a poesia.
Se poesia cantasse, se poesia sorrisse, se poesia amasse... mas você não ama poesia, você é dura. É duro seu estado em um papel como se estivesse com um véu, eternamente velada. De lá não sai, de lá se se escuta o seu ruído. Vive em prisão eterna, vive em confinamento último. Claustro das paixões, terreno de nenhuma confissão. E esse nada dizer tudo. Confiável amiga dos meus sentidos: quero-te em pranto e festa.
Poeticamente deixei meus versos sobressaírem em lágrimas que adormeciam nas dores de um parto. Grito fumegante que a minha musa inspiradora deu ao conceber de forma inversa a mais nova filha da inconsciência, da continência, eterno verbo a se conjugar.
E para se conjugar, falando de poesia, é necessário que o canto seja dos mais suaves, pois não se acredita que um cantor das mais belas liras tenha um coração amargurado, que seja capaz de detonar e fazer sangrar a sua amada afinal. E sobre tudo isso... onde está o valor da poesia? De que serve perder tempo na varanda de casa ao se irritar com os lutadores das palavras que procuram chaves para entrar no mundo da poesia, lutadores que em suas sombras trazem os mais ingênuos leitores que se permitem levar na primeira rima rica que se deixa pela frente... poesia? Não vale nada, no papel, sob o véu de nossa ignorância.
Cartas de amor, irrisórias falácias ao vento, os vibres de uma elegia, a prece, a romaria... tudo em ti poesia se cabe, mas do que adianta se em papel não valeis nada. Quisera eu que a poesia tivesse alcançado a sensibilidade de uma pintura, fraqueza corroborada em pequenas paixões ao qual não se cessa de conotar, denotar, exclamar e até mentir o verbo amor.
Enfeita romance e intriga. Cantiga de ninares das damas europeias. Falando em ti poesia, tu que és das mais sedutoras das meretrizes, da mais feia das moribundas... senha da inconstância.  Onde críticos dão as mais perfeitas fórmulas-chave de sua interpretação.
Canto triste que a lembranças de futuro nos remete, corroendo nosso sentido e solidão em tristezas de amores líquidos. Dirigindo seres oblíquos, por vezes bitransitivos, cheios de partículas expletivas de consolo e ação.
Mas sobre ti tento e não revelo completamente toda a face, pois em ti amiga não encontrei completamente teus olhos, apenas uma partícula microscópica de teu coração. Que em luta tento fugir dela como o pescador da barca bela. Tendo por esse remédio me tornado um ser nem alegre, nem triste... que tenta inutilmente jogar fora as cascas inúteis das horas e mesmo assim em labuta interminável reproduzir a poesia.
Não quero falar mais em poesia. Embriaguez súbita ela me proporciona ao ponto de matar o meu espírito pra nunca mais rejuvenescer. Poesia... seja de tarde ou de dia, mas é a noite que ela veste o seu vestido púrpura de desencanto e desilusão. Em contrapartida dá um beijo apaixonado no seu amante chamado razão.



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Que o teu sim seja sim; e o teu não seja não. (Mt 5,35)