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domingo, 22 de setembro de 2013

Palavras e alma


Palavras são fragmentos da nossa alma que quando saem de nossas bocas enchem o mundo de nós mesmos. Sozinhas fazem pouco, mas quando encontram outras, soltas na imensidão do mundo, uma teia de poesia enche a amplitude no nosso ser. Quando as palavras se encontram, as almas fazem o mesmo.

Olavo Barreto.

domingo, 30 de junho de 2013

Sobre o tempo nas horas da vida


As vezes preciso escrever alguma coisa para me concentrar em outra escrita "mais obrigatória" do que a que faço neste momento. E por conta disso é que tomo a liberdade de refletir sobriamente sobre o tempo que gastamos, ou melhor, procrastinamos, nos momentos em que devemos dar maior atenção ao trabalho da última hora. 
Sentimento de fuga. Essa é a verdade. Mas, porque fugimos? Existe uma razão para fugirmos de tudo e não tornar, pelo menos por enquanto, ao nosso trabalho do agora. A felicidade é um lugar cheio de ternura e afeto, na felicidade encontramo o espaço que a falta de liberdade nos dá. Dessa forma, quando nos propomos a seguir um caminho que está proibido naquele momento, queremos, na verdade, sermos livres. A liberdade é o sentimento mais vil que a última hora pode nos oferecer. Tomamos a liberdade de ser aquilo que não fomos convidados a assumir. Assumimos um tempo que não é nosso, sendo por inteiro nosso, a partir da palavra em sua magna ostentação do agora. 
E assim a vida se esvai. E com a vida o tempo. O Senhor dos Destinos, o filho máximo da decisão. O que cura e o que mata. Quanto o tempo já não nos feriu com seu elixir de gosto amargo e forte? E nestes momentos de fuga tomamos expressivamente mais um gole desse elixir que esvai nosso pensamento. Uma droga que nos eleva psicodelicamente, mas, pela força da consciência, de forma efêmera perdemos o Senso do Eterno e caímos na pontualidade do momento que grita com a força de uma multidão em guerra: VOLTE AO TRABALHO! 
E neste momento a vida não é mais um deslise completo sobre os mares. Passamos do tempo que não acaba para o escorrer da água quente sobre as habilidosas e descansadas mãos. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As Marcas



Ninguém passa nas nossas vidas sem deixar sua marca. Todos nós somos marcados pela personalidade de alguém, seja de forma direta, pelo contato diário, pelas conversas corriqueiras, os bons dias apressados, os desentendimentos e as pequenas confraternizações; ou pelo contato indireto, a influência de alguém da mídia, ideólogos, pessoas distantes à nossa realidade material...
Seja de uma forma ou de outra, essas pessoas cumprem o papel de atuar no teatro da vida, deixando em nós sua impressão digital. É interessante observar que isso é cíclico. Nós também estamos deixando nossas marcas na vida de outrem. Esse aspecto da vida em sociedade é sublime, pois nos formamos como seres humanos dotados de qualidade, não de forma separada, mas em construção comunitária. Eu me construo, e comigo, construo o mundo matizando as cores que permeiam nossa realidade.
A chegada do fim do ano é a maior festa de nossas culturas, seja ela ocidental ou não. O “réveillon” é um ato celebrativo onde mais um ciclo se completa, o nosso trabalho de marcar vidas completa mais uma etapa. Para uns, será a conclusão de um trabalho que durou a vida inteira, e para outros mais, será o começo de um trabalho cansativo, duradouro e gratificante. Nessa nossa labuta, marcamos uns com mais intensidade e outros com menos, e assim, sofremos pelas duas vias, mas esse sofrer nem sempre é ruim, nós é que não nos acostumamos com a face branda do sofrimento deixando perpassar a sua face negra.
Seja como for, devemos apenas viver e deixar nossas marcas por aqui, pois quem não está fazendo isso, simplesmente não vive, porque manchar o quadro da existência com os nossos dedos para misturar as cores  do cotidiano é a coisa mais produtiva que podemos fazer nesse estágio evolutivo para a outra margem, por nós não conhecida. E até lá: mais um ano novo, mais um “réveillon”, mas uma etapa concluída, porém, não conclusa.

Texto produzido na véspera do final de 2011.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre sexualidade

Um tema bastante velho, mas sempre volta com o vigor que ele próprio transmite. Afinal, um ser humano, dotado de emoção e sentimento, não pode deixar de fora das suas divagações, o tema da sexualidade, pois o SER é completamente sexual. Na maioria das vezes, tudo se define a partir do sexo da coisa. E eu, como exímio exemplo desta espécie, cheia de desejo sexual, tentarei traçar o que venho percebendo sobre a sexualidade hodiernamente. Pois, assim como a identidade do ser humano, a sexualidade, vem se moldando com o passar das gerações. E isso é fruto das escolhas e processos humanos que regulamentam o caráter desses viventes num planeta chamado Terra.
Nunca li a História da Sexualidade de Michel Foucault, tenho pretensão de lê-la, pois pelo que vi em alguns sites é um dos principais ensaios filosóficos acerca do tema. Com certeza, quem já a leu, deve ter mais propriedade a tratar do assunto. Mas, não citando aqui o cânone sobre, resta comentarmos nossas impressões particulares, frutos de nossos empirismos, que por algum momento serviu para que uma mente iluminada tomasse como exemplo na formação de uma ideia. Já ouvi em algum lugar que, quem tem opinião não tem razão, e a ciência é a fonte mais segura de se encontrar essa razão, portanto, todos nós para estarmos seguros do que falamos devemos-nos portar de saber científico. De fato, a ciência tem muito a dizer, mas como ela é uma criação humana, por consequência ela é falível. Assim também como esta observação sobre, como se diz voluptuosamente em francês, sexualité. Portanto, vamos elencando o propício, e depois vemos as falhas…
Sexualidade é um termo muito amplo, e a princípio, não nocivo. Afinal, todo contato que a criança possui com a mãe, desde sua concepção, está ligado à relação entre corpos, que de forma mais restrita, refere-se ao sexo. Ou seja, o olhar, o cheiro, a sensação de segurança é fruto de algo menor, mas, no entanto, basal. A sexualidade é, assim como a bondade, a fraternidade, etc., algo que une pessoas, havendo sempre a comunicação, entre estas, em volta de um conceito. O sexo é o fruto dessa comunicação, algo menor, mas de bastante força, pois é dele que advém a vida. A religião cristã vê o sexo, dentro dos parâmetros conjugais, um trampolim para se chegar a Deus. Pois, se a criação é vida, e o sexo favorecendo esta, temos algo de caráter divino. Além de ser uma das melhores terapias existentes, de grande relaxamento após o ato. É o momento em que duas almas se completam, dois seres se sujeitam, se igualam. Enfim, é um elemento essencial para o bem viver. Todavia, atualmente, este elemento tem usurpando a vitalidade que antes possuía. E tem feito mais malefícios, do que benefício se for considerar a amplitude que ele tem tomado.
Em termos de comportamento humano, tudo é um processo. Não podemos fazer julgamentos de casos isolados sem antes tomar um olhar contextual. A ação de hoje é fruto de uma história, de um valor que está imbuído na própria ação, e que advém de um longo período de acontecimentos viabilizadores da ação que vemos hoje. E sobre isso, é bem verdade a afirmação que um pensador disse “entre o céu e a terra, nada é novo”. Nada é novo, mas a cada dia, vemos novas nuanças das coisas existentes. Sexo é a coisa mais antiga do mundo! e, no entanto, ele nunca foi o mesmo em todas as épocas. Houve um tempo que a prática sexual era tida exclusivamente com fins procriativos. Neste tempo a posição sexual conhecida hoje como papai-mamãe, possuía outro nome, era a posição missionária. Ou seja, o ato procriativo era uma missão, algo santificador para quem seguia este preceito. Houve um tempo também, que o contato visual entre homem e mulher era proibido. A mulher não podia ver os órgãos genitais do marido, portanto, a cópula era realizada de costas. Aconteceu também de muitas mulheres terem seus clitóris mutilados, pois se pregava que o orgasmo era satânico. Da mesma forma que muitos homens tiveram seu escroto mutilado, ou por ter realizado perversão sexual ou por prática de pureza. Mesmo sendo um ato bom, o ser humano já o considerou um malefício.
Com a revolução dos costumes, durante o século XX, o sexo vem ganhando um novo valor. A combinação sexo e drogas é um boom para emoção dos jovens das décadas de 60. Aliado a este novo estilo de ver o sexo está a mídia, grande propagadora das ideias de massa. Ela é a responsável pelo que eu chamo de sensualização do pensamento, um tipo de ideologia imbricada em cada passo dado pelos veículos de comunicação. É através dessa ideologia que as crianças estão começando mais cedo à vida sexual, no que diz respeito às práticas subsequentes e anteriores ao próprio ato. Meninas e meninos têm aproveitado de forma efêmera o espaço da infância. De fato, reconheço que o ser humano, passa por um processo para que o seu libido esteja concentrado para a procriação, mas atualmente nossas crianças têm chegado à fase genital, segundo Freud, com menos idade. Nossos pré-adolescentes têm procurado muito conhecimento acerca das práticas sexuais e os adjacentes dessa. A infância deslumbrada pela inocência tem dado lugar à efervescência fálica promovida pela mídia. Notem que o culto ao corpo, a pregação de liberdade sexual a todo custo, têm sido amplamente divulgados em comerciais, novelas, noticiários, programas de humor, etc. Nunca se vendeu tanto sexo, como nesses tempos. Em territórios acadêmicos sempre se prega um niilismo absoluto, como se tudo fosse mentira. Essa ideia é tão obsoleta e irracional que todo dia se prega a verdade nas revistas de boa forma, nos programas de entrevista, etc. Não tem como correr, não existe lugar para se esconder. Você vai cair de qualquer maneira no abismo do sexo, porque ele está em tudo. Mas não é o sexo da posição missionária, é o sexo capitalista, que obriga a você está na moda, pois não vai arrumar namorado; que obriga a você sair do armário, para ser uma Queen cheia de glamour, sendo, na maioria das vezes, uma grande mentira. Na verdade, o ser humano não anda neste ritmo que a mídia impõe. A prova disso são as lotadas clínicas psiquiátricas, repletas de corações amargurados, feridos por não se sentirem completos. Mas é assim mesmo, quanto mais incompleto, mais se vende. É verdade, como já disse Paulo Freire, o ser humano é incompleto, no entanto, essa incompletude deve o impulsionar à mudança. Já a incompletude, efeito colateral da mídia, não possui fator regenerativo.
Já ouvi alguém bastante lúcido afirmar que cada época possui uma identidade, e as gerações posteriores à época passada tentará superar a identidade por ela pregada. Depois de muita repressão, vêm os tempos de libertação, mas depois e volta a ser contido. Acredito que estamos sofrendo uma renovação de valores, que diferente de épocas passadas, terá um processo lento de consolidação. Temos que aceitar, estamos doentes por sexo. O sexo exagero, sem amor, nos tem colocado para baixo como espécie. A busca por emoção tem custado muito caro para nossos jovens, e consequentemente quem paga é toda civilização. Essa doença tão voraz tem imposto a iniciação sexual de uma maneira tão vil que os jovens atualmente têm uma grande dificuldade na definição sexual. Com mais frequência vemos relações de dupla orientação. Sei que o ser humano possui certa inclinação para a clivagem de valores, mas isso está acontecendo rápido de mais, em frações de segundos. Sou muito humanista, e muito flexivo, mas temos que ter uma posição fixa em certas ocasiões. E sobre sexo a minha está bem definida aqui, o sexo deve ser algo natural. A artificialidade dele está fazendo com que nós tornemos plásticos, nem sempre biodegradáveis, nem sempre prontos para uma reciclagem. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dom da repressão



Educação: um tema que nunca sai dos nossos diálogos. Na escola, na igreja, na mídia, no bar... não existe lugar para se falar em educação. Já me peguei um dia falando de "educação" em um hospital, num velório, durante um culto religioso; mas por que o homem insiste em falar nesse assunto? Afinal, não há nada de novo no tema, se formos pensar por um viés popular. Mas, o que eu quero falar hoje aqui não é sobre a educação em si, mas sim, algo que permeia e nossa a educação, talvez permeou a minha, permeia a sua, e vai permear a dos nossos filhos. 
Imagine uma criança sem malícia nenhuma em seu peito. Limpíssima, alma de brilho intenso. Mas logo é colocada dentro de um vaso. Este vaso possui tintas diversas, umas mais finas, outras grossas, outras claras ou escuras... a criança de branca vira um emaranhado de cores. Como sabemos, as cores possuem personalidade, o azul transmite tranquilidade, enquanto o preto luto (para os orientais o luto é branco...), as cores da alegria são amarelo, vermelho... e logo este novo ser vai se delineando nessas cores. A criança nasce limpa, mas a cultura vai imprimindo na sua personalidade o que se deve ser, ou não ser. Em minhas divagações filosóficas fico refletindo sobre essas questões, e cheguei a mais uma nova indagação: somos seres programados? será o que somos, quanto a nossas características, seres inatos? Pensando e repensando, talvez não. Quem é que nos deixa preconceituosos? Onde percebemos o caminho da "verdade" e o da "não-verdade? A resposta é simples: a herança cultural.
Só pela carga cultural que carregamos nas costas desde nossa concepção materna é que nos tornaremos os sujeitos que somos. O contato com a voz da mãe, o primeiro contato visual com o mundo, as primeiras palavras... são elementos que nos forjam dentro da cultura no qual estamos imersos.
Mas, o que tudo isso tem haver com "educação"? tudo isso também é educação. Uma educação para a vida, que forja a vida, que faz com que eu seja eu e você seja você, nos assumindo como sujeitos. No entanto, não é isso que queremos tratar aqui.
Mas o que acontece mesmo em termos de educação é a "repressão". Nossos sentidos desde cedo foram condicionados a querer apenas um tipo de coisa, uma concepção unívoca, um caminho a seguir... Por que rotular os caminhos como correto e errado? o que mesmo determina que algo será ruim ou bom? se formos investigar, no fundo de cada concepção de coisa certa está aquilo que valora a vida, ou seja, se não proporciona a vida não pode ser considerado o correto, o aceitável. Isso tem um fundo de razão. É preciso que a vida possa ser valorizada para que o ser humano possa caminhar, existir e compartilhar experiências, forjando outros homens. Mas nos esquecemos que nessa nossa caminhada, enquanto forjamos homens, estamos pregando a pedagogia da repressão. Por mais que se diga "pregamos a democracia", "todas as vozes possuem vez", nesses mundos imaginários sempre haverão pequenas vozes não ouvidas, insignificantes. Mas existe uma onda ainda pior, algo que não se perdoa. Não se pode nem enunciar, mas todos nós estamos fadados a isso, e esta lástima reside no nosso subconsciente. É algo que nem a maior eloquência na escrita poderá lhe transmitir. E talvez nem seja preciso.
O ser humano possui um verdadeiro dom para a repressão. Dom de calar a voz até do mais falante. De quebrar o passo do mais andarilho, de apagar o fogo do mais ardente. Enfim, de ofuscar o brilho de uma felicidade. Não é preciso dizer mais nada, pois eu e você temos esse dom.