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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

VERBUM


Uma fogueira que estala quando se consome;
uma torrente de águas que afoga a alma de luz;
uma ventania que arrasa o que está mal edificado;
uma chuva que transborda a proteção de um capuz;
um arrepio que torce a espinha em plena madrugada:


assim, e muito mais, é a Tua Palavra no meu horizonte,
essa ponte, esse pórtico, essa escada.

Essa Palavra tão forte de amor e de cruz
cruza sobre os montes a verdade chegada
negando, ainda, a minha turva visão,
o meu não para a vida santa, as mãos postas:
ora levantando o outro, ora centradas.

Mas ainda o fulgor dessa Palavra Santa é tão forte,
tão longo e tão celestial em seu estabelecimento
que por tantos momentos fico cego, surdo e mudo,
caio em sono profundo e chego a esquecê-la...

Mas como num sonho,
vem este professor com Ela na mão:
Santo Antônio, São Domingos de Gusmão,
São Tomás, Santo Inácio de Antioquia,
São João da Cruz, São Luiz Maria
apontando o caminho certo,
a luz da alma, a plena guia.

Acordo: volto ao que sou, ao que professo,
e em claridade volto a adormecer,
a sonhar o sonho dos justos,
a cantar o salmo do alvorecer,
a celebrar o sempiterno
para eu nunca me esquecer:
o Supremo Amor da minha vida.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

SHEKHINAH




Oh! invade, eu me permito,
fogo das delícias celestes.
Eu caio, eu me debruço,
eu rasgo minha vestes
diante da Tua shekhinah.

Oh! invade, eu me permito,
escancaro as minhas portas.
Contigo nada mais importa,
Tu que és o doce alívio,
tu que és o Belíssimo Esposo,
o êxtase da santidade.

Oh! invade, eu me permito,
mergulho, Santo Espírito,
nas labaredas da Tua extensão.
Me possui com sob o anseio
de me tomar-me de novo,
em meu ouvido ter Teu sopro,
em teus braços, nesse casamento.

Seja bem vindo Meu Amado,
à Tua casa que é só tua.
Além dos mares, além da sorte,
na constelação do firmamento
se consome esta alma em paixão.
E na tua shekhinah, a minha casa,
é um templo devoto para Tua adoração.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Carnavalização


Tinha ido ao bloco de carnaval sem pensar na vida. Não eram planos que vinham a sua cabeça naquele momento, era a carne. Sim, instintos à flor da pele. Era o corpo que falava, tepidamente, ao som de um remix de marchinhas de carnaval. Alcoolizado, não mais respondia por sua identidade. Era um avatar abastecido pelo inconformismo de ser deixado nas vésperas do resultado do concurso para professor efetivo de uma universidade pública. Não eram as teorias botânicas que agora estavam em diálogo com a sua biologia? Não era um momento para teorizações. O passado o tinha feito mais teórico do que prático, um mártir do inconfessável, do silêncio e solidão, sem catarse. Entre os olhares, entre pessoas, um único sentimento brotava, a incompletude. Andava sem as pernas. Na verdade, o corpo era carregado pela justiça mórbida que o álcool lhe proporcionava. Ela, onde estava? Tentava reconhecer na morena que agora passava um rosto familiar. Por quanto tempo tinham vividos juntos? Simplesmente, o tinha deixado. O concurso tinha sido opção dela. Queria ele apenas continuar como assessor do pai nos assuntos administrativos, mas ela tinha ambição. Hoje terça, na sexta sairia o resultado final. Uma carreira promissora. Solidão. Depois o pós-doutorado no exterior. Solidão. Depois o reconhecimento, uma honraria. Solidão. As teorizações sobre um mundo objetivo, à ponta do cálculo, não resolveriam seu dilema. Mas o carnaval sim. A vida, naquele instante, dava um passo de frevo. Estava passista inóspito da inconclusão. Seu desejo era matá-la. Mas ele sabia que isso era impossível. Não teria em seu sangue o vestígio de cangaceiro que seu bisavô tinha deixado na família. Era justiça que se clamava. Mas onde ela está agora? Aquele verão deveria ter acabado na cama e não no telefonema infame. Olhos de catuaba. Na adolescência, naquele grupo de jovens na igreja. Não imaginava que isso pudesse ser diferente. Eram juras eternas. Ela se enganou, buscou dramatizar a felicidade ao lado de um rapaz de sonho pequeno. Tudo que ela queria era a glória dos altares. Modéstia. Vivia de pernas cobertas, blusas sem decote, e palavras de sabedoria. Afinal de contas, todo este teatro parou no telefone, há alguns segundos. Um ‘grand finale’. Numa noite de calor, às vésperas do ano novo, tinha feito o planejamento estratégico para uma grande empreiteira. Ao som estalado de beijos tinha desenhado a casa, batizado os filhos, marcado agendas para uma taça de espumante que sela as vidas e seus tesouros. Como era engenhosa com aqueles olhos de catuaba. O rapaz queria estar sóbrio de si mesmo, de seus sonhos pequenos, mas se deixou embriagar. Como é que ela pôde? Amor, você sabe que vou ser toda tua, né? Mas, por enquanto, modéstia. Um amor nos tempos da devassa alheia. Estava de pequena bolsa velada. Veste guardiã da vida. Sedas e um grosso oxford tapavam um motivo de alívio e cura das misérias humanas. Um réveillon transpassaria o ano velho teatralizado. Protagonista de fama, teria causado identificação em toda família, menos na irmã dele. Certa vez, a irmã tinha dito que ele saísse dessa. Só você que não vê, mano. A coisa dessa aí é outra. Podia ser tudo, podia ser outra mulher, mas que não fosse o dito ao telefone. Mas que outra? Dinheiro? Talvez pela irmã ser uma solteirona aos 35 anos, um caso com um homem casado, um incesto com ele na adolescência, uma vida de gerente de banco, livre de tudo, teria o direito de tecer os fios do seu destino. O rapaz não tinha tanto dinheiro, tinha um pouco de beleza e vários contatos com quem podia contar na necessidade. Era careta, mas tinha bons amigos. A irmã estava certa. Ela estava em outra. No telefone um alô despretensioso. No carnaval o alô ecoava ao som ritmado das marchinhas. Em cada grito, em cada gargalhada, um alô. Você está aí? Ansioso pelo resultado do concurso, disse que estava. Mas, durante o bloco ele não estava nem era. Pensou em quebrar a garrafa e cortar os pulsos. Viu a polícia. Seria preso ou morto pelo intento. Um grupo de bêbados entoavam a oração do abismo – “oh, meu bem não faça isso comigo não”. Uma lágrima. Estava à flor da pele com seus instintos, mas era nela que pensava. Corpo, som e droga entraram em êxtase sobre aquela existência de identidade perdida. Olha, quero que você escute bem. Ele escutava tudo naquele momento. No bloco, estava surdo. O som o tocava pela vibração, mas a audição estava perpetuada com uma única frase. Um mantra de eterna execução. Eu estou indo embora. O coração tinha parado. Um réveillon tinha feito a vida dançar, mas a música parecia que ia ser trocada, e o par desfeito. Lembrou-se de quando era criança. Na casa da tia passava as férias, sua prima o adorava. Brincavam até seus corpos não aguentarem mais e pedirem arrego no colo materno. Não eram primos naquelas férias. Pareciam uma pessoa só com a caixa da felicidade nos brinquedos. Não bonecas ou carros ou bolas, mas folhas. Brincavam com as folhas do quintal. Brincava com a menina por obediência à mãe. Vivia a personagem. No fim das férias, disse que precisava ir embora. A prima tornou-se lamento. Uma febre incorporou-se na pequena mulher. As férias tinham acabado para ele também com o telefonema. Era personagem também? Não, não poderia ser. Se tinha dado em corpo, sangue e alma. Não quis dizer antes, pois tinha medo que você fizesse besteira. No natal, tinha feito uma declaração de amor, em juras eternas à amada. A família se espantou. Até parecia que o amor era um causo na vida do jovem. Amava, mas, com reservas – era o que pensava o pai e a mãe. Aplausos por todos, descrença pelos produtores da prole. Mas, poderia ser verdade. Estou neste momento indo para o convento das irmãs consoladoras, darei entrada no noviciado. Choques entre o céu e a terra. Febre. O telefone desligou. Amor, amasso, amargo. Não estava no carnaval, estava na quaresma. Páscoa jamais. Um litro de vodca se esvaziava naquele momento. A praia a vista. Uma miragem. Um sopro. Um novo vigor: Armando caminhava sobre as águas. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Uma crônica sobre o posicionar-se



Identidade e subjetividade: ou seja, o indivíduo tem o direito de se expressar por si, de ser ele mesmo. Se será aceito ou não pela "outridade", "o fulano do lado", isso é outra questão.
Alteridade: o sujeito expressa-se de modo interdependente do outro. O "eu pessoal" para existir necessita do definição do "outro". Nesta questão para o sujeito ser ele, "o fulano do lado" tem de dizer isso, deve refletir sua existência. Se este "eu" é negado pelo outro, isso também é modo de confirmar que o "eu" existe. Se é afirmado, a mesma coisa.
Quando tomo decisões, excluo outras, corto vínculos, me posiciono, estou colocando em prática minha identidade, minha subjetividade. E como todo enunciado, "o que eu digo agora", sempre se destina a alguém exerço, nesta prática, minha alteridade.
Se sou ativista, filósofo, teólogo, professor, estudante, vagabundo, "nem-nem"... sempre estarei, com meus posicionamentos, me impondo. Se isso é positivo para o outro ou não; se isso faz crescer o outro ou não; se isso edifica ou não, temos aí questões de moral. Ou seja, se a jovem manceba decide expor sua intimidade, via face, colocando selfies feitas no espelho com a legenda - "sendo linda, sem ser vulgar"-, e você acho isso ridículo (juízo de valor, você deu uma opinião sobre...), ela, apenas exerce, naquele instante, sua subjetividade. Não é disso que trato aqui: juízo de valor. Trato, apenas, exclusivamente, do posicionar-se.
Assim, de modo conclusivo afirmo: deve-se alguém questionar, esbravejar, rasgar o verbo como o que não se concorda (subjetividade). Isso faz com que o "outro" seja lembrando (alteridade).
O que não pode ocorrer é pegar o outro pelo pescoço e arrochar até a morte. Pois você precisa dele para ser, e ponto final.
Sobre questões de moral, não toque na minha, que eu não toco na sua. Viva seu candomblé que eu vivo minha teologia da prosperidade. Cada um tem o céu e o inferno que quer ou merece. Abraços.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Desencanto


Os rios que emanavam águas luminosas
Se encheram de lágrimas que preencheram
As madrugadas de frio e escuridão
Onde era prateado, tornou-se turvo.
Um coração em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

As rimas não cantam mais
Não cantam mais palavras
O silêncio choroso, tornou-se.
As manhãs de alegrias
Experimentaram o eclipse tardio.
As músicas, os romances: desvario.
Um coração em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

O espelho se quebrou
Se quebrou a taça
Se derramou o vinho
Coração ruído em traça.
Onde está a luz e o encanto?
Onde está a plenitude,
A beleza e a felicidade?
Em tão pouca idade
Tive a atitude de amar,
E com palavras-rimas
A uma musa contemplar
Mas hoje, um coração está em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Criação


De repente glosa
De repente rima
De repente sina
De repente amor

- uma lânguida espada transpassa o corpo dourado das horas benditas.

- em um relance de luz eterna entoa-se o salmo responsorial das obscuridades.

- cai uma gota de sabor na brancura colada na imensidão do quarto.

- no silêncio um relógio palpita.

Inaudição


Foi aquele som
aquele som inaudível
que transpassou
com milésimos de segundo a minha alma.

Foi aquele som,
cumprimento na penumbra,
que se plantava e não colhia
que se lembrava e ao mesmo tempo se esquecia.

Foi aquele som
a despedida,
o ser real das disparidades,
o leito eterno dos desencontros,
a calma despedaçada,
a alma em chamas,
o sentimento oprimido,
o desabrigado na calçada.


Olavo Barreto.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

À luz de um dia


Esta manhã, refratário de nossas almas, contempla a vivacidade que existe entre o repouso e a luta. Muitos acordaram hoje para ruminar o brilho das fugacidades em cada passo cheio de bolor rotineiro. Muitos acordaram hoje para teogonizar sua incertezas, cheias de ilusão e falsas conquistas. Muitos acordaram hoje para protelar o substantivo de suas vivências, ora para dar vasão à preguiça, ora para sustentar sua cobiça. Muitos acordaram hoje para reviver na fé, pulando em cada instância para não terminar sem ouvir a voz da ciência divina. Quantas pessoas não acordaram também? Procuram o asilo terno de sua cama para nunca mais voltar. Procuraram a luz que de tão forte nos faz cegar. Agora, poucos, e disso tenho certeza, acordaram para fazer poesia. Nem que fosse para cantar a musa antiga, velha madona dos nossos cantares. Poesia é café amargo e sôfrego. Tomai teu café e vive tua canção. Toma coragem na luta, e vive tua poesia. Porque ao alvorecer na nova manhã não terás mais a mesma rima.

Olavo Barreto.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Repouso



Deita morena...
Deita sobre mim o teu coração inebriante
Deita sobre mim as curvas da consolação
Deita sobre mim os teus lábios angélicos.

Deita morena...
Deita sobre mim a fechadura que abre a vida
Deita sobre mim os rios do teu encanto
Deita sobre mim os diamantes cintilantes de tua boca.

Deita morena...
Deita e repouse em eterno de amor
Deita e dorme nesta madrugada onírica.

Olavo Barreto.

Desconsolo



Chora minha alma, chora
de amargura e desprezo...
Chora minha alma, chora
de pesar em terno ensejo.

Chora minha alma, chora
por não mais ter paciência...
Chora minha alma, chora
pela boca calada à clemência.

Chora minha alma, chora
coração negro e sem som...
Chora minha alma, chora
lágrimas frias de profundo tom.

Olavo Barreto.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sonhos e beijos


Eu sonhei contigo, morena.
Eu sonhei te beijando eternamente
Tua boca de sabor, pura e pequena.

Eu sonhei contigo, morena.
Viajando entre nuvens
Tendo uma luminosa paixão plena.

Ah... nossos beijos
sonhei como um homem sonha com sua amada...
Tu, vestida de branco, sorria para mim
Eu, de vestes simples, caminhava ao teu lado
Tu, com palavras doces, contemplava meu coração
Eu, com um abraço terno, te abraçava em comoção.

Éramos perfeitos.

A luz do nosso olhar ofuscou o brilho da lua dos amantes.
E o sol não mais aparecia,
Porque o nosso beijo era mais intenso,
Do que a própria luz do dia. 

Olavo Barreto.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Confissões



Ai, minha Morena dos Encantos...

todos os dias penso na tua beleza. Como eu queria ser Homem o bastante para poder ter só o teu olhar. Teus olhos são como um sol que nunca passa. Mesmo diante da noite, o teu brilho permanece intacto. Não podem as trevas te tocar; não podem as trevas te amarrar; porque você é toda luz. Se o meu coração que era uma nuvem escura, apenas com a tua presença, se tornou centelha de amor, imagina se tu voltasses toda para mim?
Ai, a tua luz me transpassaria... Seria eu um ser todo amor. Seria eu um ser de luz como tu, Anjo de suprema beleza.
Nas noites de pensamento vulto, não consigo dormir sem contemplar no meu coração a tua imagem. 
Virgem eterna das saudades: foi assim que te nomeei, desde a última vez que trocamos palavras. Minhas palavras, tão monótonas, cumpriam a escala normal do tempo, afirmando banalidades. Tais palavras, mascaradas de nenhum sentimento, desejavam revelar-se para ti como um mel apaixonado.
Ao ver-te, amada, sob o crepuscular da manhãs, nas horas médias entre o viver e o repouso, meu coração dói. Tenho a maior dor que uma alma pode sentir. Sem nenhuma intervenção feita pelo braço, que arrasa o peito, que quebra o cristal do corpo. Sinto uma dor imensa. “Dor que desatina sem doer”, como o amigo Camões revela. Eu sofro, por mim mesmo, porque tua alma não se volta para mim. Ai como desejo sentir tua alma respirando junto a minha, sincronizando os cânticos espirituais que proferem nossas bocas no êxtase da bonança, do laço, do eterno dar-se em pleno sentimento. 

Olavo Barreto.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Introspecção



Hoje descobri que só consigo ser complicado. É uma dádiva que adquiri com o tempo e acho que vou levá-la para a vida inteira. Não é ser complicado por ter de complicar os fatos por misturar as pontas dos fios em diferentes hastes de forma a embaralhá-las. Minha forma de complicação é outra: algo que não está no mundo sublunar e pedestre. Também não estou vivendo na órbita da lua, embora minha carta astral diga que eu sou desse modo. A minha complicação é de ordem banal (que nem sempre é minha, instaurando aqui a primeira confusão de si mesmo). São as banalidades que não dou conta. Ser complicado é ser dependente.
Clarice Lispector inicia A hora de estrela dizendo que “tudo no mundo começou com um sim”. Pois, é. Isso não cabe na minha cabeça, porque antes de dizer o sim eu tenho de me curvar aos meus consultores internos para perguntar – posso? Meus consultores são muito exigentes e na maioria das vezes dizem não. Nem sempre com um por quê claro, mas sempre definitivo. Das vezes que não atendi aos apelos de meus consultores tive que sofrer com suas indiferenças. Ou seja, eles mandam umas pragas para que a minha luz seja abalada. Transgredir a opinião deles é a melhor forma de ficar à deriva. Desse modo, prefiro não mais ir de encontro com as verdades que eles pregam, pois sempre me prejudico. Na verdade, de certo modo, com todo respeito, e sem querer ofender, eles são uma espécie de encosto. Eles sopram no ouvido.
Com tudo que eles já me oportunizaram, tem uma coisa que eu não entendo, mas aceito bem (ou não). É o fato de eles me reduzirem; sempre fico no ímpar. Não adianta andar muito, procurar muito é como se houvesse uma força que coloca para traz. Um enigma sem fim advindo de uma esfinge severa. Às vezes queria ser eu mesmo, sem precisar ouvir a voz dos consultores. Mas pelos meus cálculos, que eles próprios me ensinaram, devo me libertar quando uma voz mais forte aparecer. Mas como ela nunca aparece, nem eu nunca tive o interesse de procurar que voz era essa, fiquei aqui mesmo plantado. Talvez essa seja a melhor condição de me definir. A condição de planta é a mais aprazível no momento. Mesmo vivo e observando o mundo sob uma ótica única, nunca saio do lugar. Cresço no mesmo canto, com os mesmos laços, e caso eles sejam cortados eu morro.
Teria tanta coisa a relatar, mas os consultores já estão me dizendo que é hora de se falar para dentro. Do mais, só posso dizer: não tenho futuro traçado, por que estou fadado a mudá-lo, até que ele não seja mais meu; não tenho presente, porque os consultores dizem sempre o que não fazer de forma ao presente ser só deles; só tenho passado, porque a lembrança é o único direito de que não fui tirado; e viver é estar na condição de vegetal: vivo, mas parado... até que apareça a nova ordem trazida em voz consultiva. 


Olavo Barreto.

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre a experiência do Livro


Embora o título do texto fale sobre a experiência do livro, aqui vou falar da minha experiência pessoal de possuir livros. A razão do título estar assim se refere ao majestoso ato do Livro. Este ato é um compósito de emoções que trazem à tona tudo que se refere, emocionalmente, à leitura, que nesta reflexão começa pela aquisição desta peça esplendorosa do conhecimento chamada livro.
Como quase toda reflexão pessoal possui narrativa, esta não seria diferente. É bem verdade a que a voz deste sujeito está cheia de saudosismo e elevação. Sendo épico, mas com um tom menos elevando quando fala de suas experiências leitoras. Pois aí vem a nossa história:
Já faz muito tempo, mas na memória este acontecimento é como se tivesse acontecido hoje pela manhã. A memória, por mais falha que seja em alguns momentos, é sempre eficiente quando algo nos marca profundamente. E este acontecimento, sem sombra de dúvidas, foi imprescindível para que eu possa ser o que sou hoje, ter o que tenho e pensar o que penso. Depois que nós começamos a refletir sobre nossas experiências, percebemos que cada momento da vida é de importância extrema para a nossa constituição como sujeito. Todo aquele discurso sobre a valorização das coisas pequenas é verdade. São os elementos de base que sustentam o grande homem. Peças pequenas, de passível vivência, de plena insignificância momentânea, mas com força destruidora, se for o caso. No nosso caso, a força daquele momento é construtiva, positiva, no entanto, simples. Deveria eu ter meus 09 anos e viajara ao Recife para visitar os familiares. Lembro bem da casa. Era branca, situada em uma avenida muito movimentada. Possuía um grande quintal, três quartos e tudo mais que faz parte da mais comum casa. Mas o segundo quarto guardava um grande tesouro, algo que para mim era inacessível. Entrar naquele quarto era para mim um momento de satisfação. E eu entrava, mas saia do lugar incomodado por não possuir aquilo, naquela complexidade, que para uma criança era muito complexo, no entanto, muito chamativo para mim, mesmo sem muito entender do mundo e das coisas. Era o quarto do Téo. E o que havia nele? Sua biblioteca. Simples. Foram aqueles livros e o olhar de um apaixonado pela leitura que me fizeram despertar. Não me lembro do que dizia, mas lembro de alguns livros de capa dura vermelha, algo parecido com uma Barsa. Não me lembro de ter aberto aqueles livros, mas eles tinham chamado minha atenção. E aí surgiu o vil sentimento: eu precisava de uma biblioteca. Para quê, naquele momento, eu não sabia bem o porquê, todavia, deveria de ter uma biblioteca num futuro bem próximo.
Sempre fui devoto da leitura. Minha mais remota experiência com esse mundo, do que eu tenho lembrança, é de que logo após fui alfabetizado lia tudo que me aparecesse. As viagens para a capital era uma grande festa. Ler aqueles outdoors e depois ser aplaudido por isso sempre foi rotina após os primeiros anos de alfabetizado. Esse também foi o primeiro incentivo que meus pais me deram para hoje me tornar um leitor. E nesse sentido, o incentivo é arma mais poderosa na formação de leitores. Felizmente ou infelizmente — tudo depende da finalidade — o ser humano é vaidoso. Ele precisa de reconhecimento para continuar. Apenas as almas mais sensatas não querem o reconhecimento imediato e instantâneo. Mas como estou em processo evolutivo, como diriam meus amigos espíritas, sou um humano normal dotado de cobiça. E a cobiça do conhecer mundos através da leitura sempre foi uma ótima motivação para se seguir em frente em busca do Mais.
Algo significativo nesta minha formação foi o contato com as bibliotecas desde cedo. A primeira biblioteca que frequentei foi, na verdade era apenas uma estante, a da secretaria municipal de educação, daqui da minha cidade. Uma senhora chamada Ceci, funcionária do local, anotava na sua agenda os livros que eu tomava emprestado. E aí, nessa época, tive um grande mergulho no mundo do Monteiro Lobato, Câmara Cascudo, Ana Maria Machado, e tantos outros...
A minha segunda biblioteca foi a do sindicato rural. Ali tive belas experiências. Foi lá que, pela primeira vez, conheci, e pude apalpar, uma enciclopédia. Aquilo era o maior tesouro que uma criança poderia conhecer. Como eu não podia comprar uma, ficava tirando cópias de algumas páginas para um certo futuro ter a minha própria enciclopédia. Cada imagem, cada termo, era como se o mundo estivesse se desnudado. E eu, mesmo sem muito suporte, estava compreendendo a complexidade dele. Assiduamente, toda semana, era um livro novo. As vezes até dois. O cheiro de local fechado ainda ecoa na minha imaginação, como se o primeiro momento de visita àquele local ocorresse agora.
Sempre fui, também, atrevido, queria ler coisa de gente grande. Me lembro que com uns dez anos de idade, me deparei lendo os sermões de Padre Antônio Vieira. Vou confessar uma coisa: peguei aquele livro só para ver a reação das professoras. Todo mundo ficou impressionado com aquilo. Como um menino que ainda estava no ensino fundamental se dava ao luxo de ler Vieira? Polêmicas à parte, li apenas um dos sermões contido no livro. Não me lembro bem qual era o tema dele, mas com exatidão, me lembro das expressões em latim. Eu, pobre mortal, estava perplexo por não saber o significado daquilo. Embora isso fosse já em pleno século XXI, na minha cidade não existia internet, nem muito menos um dicionário de latim. Mas valeu a experiência.
Minha terceira biblioteca foi a da própria escola. Infelizmente, de surgimento tardio, mas de importante significação. O PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, tinha enviado muitos livros à nossa escola. Daí surgiu a necessidade de desapropriar um espaço usado para depósito dando abrigo aos novos livros. Eu, como um dos amantes mais piegas deles, me ofereci como voluntário para a organização e catalogação do acervo. Foi nesse tempo que li Vidas Secas, Dom Casmurro, Iracema, e tantos outros. Foi um período de devoção aos clássicos nacionais.
No Ensino Médio, a frequência às bibliotecas se reduziram. Mas a leitura não. Neste período comecei a tomar gosto pela literatura popular. Li e comprei muito cordel. Chegou um determinado tempo que eu não consegui ler outra coisa. De tanto ler cordel fiquei com a cognição apurada pela estrutura do verso, ao ponto de quando lia uma narrativa achava estranho, pois não era o mesmo ritmo.
Neste meu relato muitas coisas ficaram de fora. Existiram momentos e momentos importantes na minha formação inicial da leitura. Por que não citar as aulas do Telecurso 2000? Foi lá que tive muitos direcionamentos de leitura. A escola não tem uma parte muito significativa na minha formação. A leitura para a sala de aula sempre foi muito enfadonha, cheia de porquês, às vezes sem nenhum sentido para mim. Era um saco ter de ler aquele livro. Mas quando a iniciativa era nossa, tive bastante êxito.

Minha caminhada continuou e ainda continua. O universo dos livros ainda é o meu fraco. Não posso ainda dizer que tenho uma biblioteca, mas sim, posso afirmar que ela está em construção, assim como, eu ainda, sempre vou estar em processo. Pois os livros nos abrem feridas que são curadas por outros livros que abrem novas feridas. Um círculo vicioso, um eterno processo. Um dia em que o livro nos deixar de chagar é porque o livro não está mais cumprindo sua missão ou nós não estamos cumprindo nossa missão de leitor, ou seja, a de se deixar marcar. Uma boa leitura sempre deixa marcas. As que não deixaram simplesmente foram ou perca de tempo ou simples reconhecimento de letras vazias.



Olavo Barreto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sobre a série "Sobre Livros"



Há algum tempo venho pesquisando na internet blogs sobre leitura e descobri vários. Dentre os achados na minha pesquisa, evidencio o da blogueira — mas ela não se considera como tal — Juliana com seu O Batom de Clarice (http://www.obatomdeclarice.com/). Além de postar alguns textos apreciativos sobre livros no seu blog, ela também posta periodicamente vídeos, sobre o mesmo assunto, em um canal no YouTube (http://www.youtube.com/user/juligervason?feature=mhee). Os vídeos dela são muito bons, já estou fissurado em acompanhar o “trabalho” dela neste blog. Está super-recomendado clicar nos links aqui disponibilizados, pois se você gosta de leitura encontrou uma grande parceira neste gosto. E uma parceira de qualidade, pois a nossa menina das letras é simplesmente Doutora em Letras, com tese defendida, nada menos, sobre Clarice Lispector. Por tanto, é altamente sugestivo que você a acompanhe.
Outra blogueira muito sugestiva é a Tati, como carinhosamente Juliana a chama, aquela é a dona do blog TINY little ThInGs (http://frappuccinomochabranco.blogspot.com.br/). Além de livros, nossa amiga traz indicações de filmes e outros mais. Seu canal no YouTube é este: http://www.youtube.com/user/tatianagfeltrin?feature=plcp. É passagem obrigatória também. Super-recomendado.
E eu, pobre mortal, me achei no direito de, assim como minhas ídolas, fazer vídeos sobre minhas experiências leitoras. Daí surgiu à ideia de fazer a série de comentários Sobre Livros. Não prometo uma periodicidade na composição dos vídeos, mas na medida do possível eles vão aos poucos aparecendo. No memento em que escrevo esta postagem o vídeo está carregando. Surpreendi-me com os 18min de falatório, mas acho que ficou bom. Está em linguagem bem informal, mas não perdendo o foco que era a apresentação dos livros. Quero me desculpar de antemão, pelo meu forte sotaque paraibano. Se alguém se sentir incomodado com o meu sotaque, não posso fazer nada, já fui fabricado assim, estou feliz com isso. Do mais, resta saber se vocês se interessaram pelos meus comentários. Espero vê-los, tanto aqui no blog como no canal do YouTube onde o vídeo está lotado.
O primeiro vídeo da série pauta-se nos comentários sobre Boca do Inferno de Ana Miranda, O mundo de Sofia de Jostein Gaarder, Poesia lírica e indianista de Gonçalves Dias e Os melhores poemas de Olavo Bilac uma seleção de Marisa Lajolo. São comentários simples, fruto das minhas experiências com esses livros. Além destes, falo do quem venho lendo neste mês de setembro de 2012. São eles: “Amor Líquido” – Zigmunt Bauman, “O ser e o tempo da poesia” – Alfredo Bosi e “Abc da literatura” – Ezra Pound.

domingo, 9 de setembro de 2012

Depois de ouvi-la pela última vez



Dedo a dedo, nós fomos nos afastando nesta fria madrugada.
Nossos corpos, tão esplêndidos... não possuem a clareza das nossas antigas manhãs.
Nossas tardes, mutáveis... passam de segundo em segundo procurando os caminhos convexos da indiferença.
Ganhamos ignorâncias que apartam nosso coração com um mortífero fel.
O silêncio se tornou a música desesperada de uma respiração de ofegante inconformismo.
Sem direção, eu tomei o caminho do sul, e você tomou norte. Novas vibrações...
As músicas fúnebres são o acalanto daquilo que era doce e terno.
O inverno é a estação da minha nova qualidade, viver e sonhar depressão.
Triste verbo que tenta presumir e acaba desfeito, do pretérito subjuntivo imperfeito.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Poema publicado em antologia nacional



Concurso Nacional Novos Poetas 2012prêmio Sarau Brasil é um concurso que tem por objetivo demonstrar como está a literatura brasileira hoje, apontando principalmente, que ela está viva e continua a todo vapor celebrando a vida e a poesia nos mais diversos estilos de poetas e poemas. Como o concurso é de âmbito nacional, foram selecionados autores de todo país. Uma seleção acirrada, pois entre os mais de 2000 (dois mil) inscritos, apenas 250 (duzentos e cinquenta) autores foram escolhidos para fazerem parte da antologia que registra os melhores poemas selecionados neste concurso.
A divulgação do concurso se deu nas mais diversas mídias. Teve-se apoio principal da TV Cultura e TV Brasil, além das parcerias com as universidades federais de Pernambuco e do Rio de Janeiro, bem como da Empresa Brasil de Comunicação. O concurso, para sua efetivação, foi promovido através de edital público, e a antologia sai publicada pela editora Vivera, com sede em Cabedelo/PB.
Tive conhecimento do concurso na universidade, faço curso de graduação em Letras Português na Universidade Federal de Campina Grande. Então, tomei a iniciativa de enviar um dos meus poemas mais lidos na página que tenho no site Recanto das Letras. O poema selecionado pelo concurso é chamado “Versos da Verdade”, poema que grita a fim de saber onde está a verdade inibida pelos controles da sociedade. O mesmo poema encontra-se na página 218 da antologia, e eu o considero um grande marco em minha produção de escrita, porque foi a primeira vez que tive algo publicado dos meus textos de criação.

Matéria publicada anteriormente em <http://gurinhem.com/noticia?id=1144> no dia 28.06.2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ao falar em poesia...


“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
Autopsicografia - Fernando Pessoa

           
Falar é só o que nós sabemos fazer o tempo inteiro. A verbalização é o meio mais eficaz de sobrevivência do ser humano, sem ela estaríamos fadados ao completo caos. E no meio de tantos falares, de tantas verbalizações, de gritos altamente sonoros, de sussurros, de bradações, exclamações; enfim, nesse urro intenso emanado da cabeça e do coração do homem algo surge como o grotesco, inanimado, mas tido como supremo... fonte das mais belas expressões ou dúvidas: a poesia.
Se poesia cantasse, se poesia sorrisse, se poesia amasse... mas você não ama poesia, você é dura. É duro seu estado em um papel como se estivesse com um véu, eternamente velada. De lá não sai, de lá se se escuta o seu ruído. Vive em prisão eterna, vive em confinamento último. Claustro das paixões, terreno de nenhuma confissão. E esse nada dizer tudo. Confiável amiga dos meus sentidos: quero-te em pranto e festa.
Poeticamente deixei meus versos sobressaírem em lágrimas que adormeciam nas dores de um parto. Grito fumegante que a minha musa inspiradora deu ao conceber de forma inversa a mais nova filha da inconsciência, da continência, eterno verbo a se conjugar.
E para se conjugar, falando de poesia, é necessário que o canto seja dos mais suaves, pois não se acredita que um cantor das mais belas liras tenha um coração amargurado, que seja capaz de detonar e fazer sangrar a sua amada afinal. E sobre tudo isso... onde está o valor da poesia? De que serve perder tempo na varanda de casa ao se irritar com os lutadores das palavras que procuram chaves para entrar no mundo da poesia, lutadores que em suas sombras trazem os mais ingênuos leitores que se permitem levar na primeira rima rica que se deixa pela frente... poesia? Não vale nada, no papel, sob o véu de nossa ignorância.
Cartas de amor, irrisórias falácias ao vento, os vibres de uma elegia, a prece, a romaria... tudo em ti poesia se cabe, mas do que adianta se em papel não valeis nada. Quisera eu que a poesia tivesse alcançado a sensibilidade de uma pintura, fraqueza corroborada em pequenas paixões ao qual não se cessa de conotar, denotar, exclamar e até mentir o verbo amor.
Enfeita romance e intriga. Cantiga de ninares das damas europeias. Falando em ti poesia, tu que és das mais sedutoras das meretrizes, da mais feia das moribundas... senha da inconstância.  Onde críticos dão as mais perfeitas fórmulas-chave de sua interpretação.
Canto triste que a lembranças de futuro nos remete, corroendo nosso sentido e solidão em tristezas de amores líquidos. Dirigindo seres oblíquos, por vezes bitransitivos, cheios de partículas expletivas de consolo e ação.
Mas sobre ti tento e não revelo completamente toda a face, pois em ti amiga não encontrei completamente teus olhos, apenas uma partícula microscópica de teu coração. Que em luta tento fugir dela como o pescador da barca bela. Tendo por esse remédio me tornado um ser nem alegre, nem triste... que tenta inutilmente jogar fora as cascas inúteis das horas e mesmo assim em labuta interminável reproduzir a poesia.
Não quero falar mais em poesia. Embriaguez súbita ela me proporciona ao ponto de matar o meu espírito pra nunca mais rejuvenescer. Poesia... seja de tarde ou de dia, mas é a noite que ela veste o seu vestido púrpura de desencanto e desilusão. Em contrapartida dá um beijo apaixonado no seu amante chamado razão.