domingo, 22 de setembro de 2013

Palavras e alma


Palavras são fragmentos da nossa alma que quando saem de nossas bocas enchem o mundo de nós mesmos. Sozinhas fazem pouco, mas quando encontram outras, soltas na imensidão do mundo, uma teia de poesia enche a amplitude no nosso ser. Quando as palavras se encontram, as almas fazem o mesmo.

Olavo Barreto.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Repouso



Deita morena...
Deita sobre mim o teu coração inebriante
Deita sobre mim as curvas da consolação
Deita sobre mim os teus lábios angélicos.

Deita morena...
Deita sobre mim a fechadura que abre a vida
Deita sobre mim os rios do teu encanto
Deita sobre mim os diamantes cintilantes de tua boca.

Deita morena...
Deita e repouse em eterno de amor
Deita e dorme nesta madrugada onírica.

Olavo Barreto.

Desconsolo



Chora minha alma, chora
de amargura e desprezo...
Chora minha alma, chora
de pesar em terno ensejo.

Chora minha alma, chora
por não mais ter paciência...
Chora minha alma, chora
pela boca calada à clemência.

Chora minha alma, chora
coração negro e sem som...
Chora minha alma, chora
lágrimas frias de profundo tom.

Olavo Barreto.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sonhos e beijos


Eu sonhei contigo, morena.
Eu sonhei te beijando eternamente
Tua boca de sabor, pura e pequena.

Eu sonhei contigo, morena.
Viajando entre nuvens
Tendo uma luminosa paixão plena.

Ah... nossos beijos
sonhei como um homem sonha com sua amada...
Tu, vestida de branco, sorria para mim
Eu, de vestes simples, caminhava ao teu lado
Tu, com palavras doces, contemplava meu coração
Eu, com um abraço terno, te abraçava em comoção.

Éramos perfeitos.

A luz do nosso olhar ofuscou o brilho da lua dos amantes.
E o sol não mais aparecia,
Porque o nosso beijo era mais intenso,
Do que a própria luz do dia. 

Olavo Barreto.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Confissões



Ai, minha Morena dos Encantos...

todos os dias penso na tua beleza. Como eu queria ser Homem o bastante para poder ter só o teu olhar. Teus olhos são como um sol que nunca passa. Mesmo diante da noite, o teu brilho permanece intacto. Não podem as trevas te tocar; não podem as trevas te amarrar; porque você é toda luz. Se o meu coração que era uma nuvem escura, apenas com a tua presença, se tornou centelha de amor, imagina se tu voltasses toda para mim?
Ai, a tua luz me transpassaria... Seria eu um ser todo amor. Seria eu um ser de luz como tu, Anjo de suprema beleza.
Nas noites de pensamento vulto, não consigo dormir sem contemplar no meu coração a tua imagem. 
Virgem eterna das saudades: foi assim que te nomeei, desde a última vez que trocamos palavras. Minhas palavras, tão monótonas, cumpriam a escala normal do tempo, afirmando banalidades. Tais palavras, mascaradas de nenhum sentimento, desejavam revelar-se para ti como um mel apaixonado.
Ao ver-te, amada, sob o crepuscular da manhãs, nas horas médias entre o viver e o repouso, meu coração dói. Tenho a maior dor que uma alma pode sentir. Sem nenhuma intervenção feita pelo braço, que arrasa o peito, que quebra o cristal do corpo. Sinto uma dor imensa. “Dor que desatina sem doer”, como o amigo Camões revela. Eu sofro, por mim mesmo, porque tua alma não se volta para mim. Ai como desejo sentir tua alma respirando junto a minha, sincronizando os cânticos espirituais que proferem nossas bocas no êxtase da bonança, do laço, do eterno dar-se em pleno sentimento. 

Olavo Barreto.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Quantas páginas são precisas para contemplar uma manhã inteira?


Hoje eu decidi escrever. É preciso mais escrever, para mais viver! É preciso juntar um montante de páginas para "contemplar inteiramente uma manhã". Na ponta do lápis, os dedos no teclado. Quis ser Manoel de Barros para desvendar o amanhecer. Mas não qualquer amanhecer. O amanhecer da completude. 
Eu mesmo estou me desafiando. Não posso contemplar o crepúsculo deste dia sem ver um montante de páginas que relatam o respirar das horas. 
Portanto, meu leitor, se quiseres ler o uma alma, aqui está ela nua. Tirei a roupa da vaidade e me deixei contemplar no puro momento da leitura. 
Se poesia farei, nem eu mesmo sei. Sei que escrevo e "cumpro a sina". 

Eu, me sentido poético e meio no limiar de uma tarde. 

Olavo Barreto.


sábado, 10 de agosto de 2013

Tudo que eu queria era fazer um último poema de amor

                Neste início de manhã eu pensei devotamente mais um vez no Amor. Você que tantas vezes toma o coração dos homens como uma volúpia eterna; que enche os corações de vigor e superação; que dá sentido à vida quando não há mais chances para vender pelas próprias forças. O Amor é um antídoto para a alma em desespero, combustível para que todas as manhãs eu possa pensar em você novamente. E por isso todo o verbo que eu sugiro tem cuidado para de alguma forma se esbarrar em você: porque você me deu o ar que enche os pulmões cheios da fumaça da indiferença, expulsando-a; me deu o correr do sangue clamor da juventude eterna e da imortalidade do sentimento.
                Amor, eu queria que meus versos, meu sempre último poema de amor, tivesse o seu efeito. Ai amor, como eu sofro pelas linhas rimadas. Como sofro pela palavra nunca dita, o olhar desviado, o sorriso contido e o sentimento cortado. Eu não queria nunca me cortar, sangrar sem necessidade, mas é impossível neste sentimento não se cortar, não se arranhar, não amarrotar o convite à esperança plena.
                Eu invejo os voluptuosos amantes. Cheios de vigor no seus encontros. Quando os amantes tocam a alma, um fluido de sintonia e prosperidade invade o ar. Fico inebriado pelo profundo beijo que irradia uma luz imensa que clareia todo o meu ser - quase nulo em tudo. Ficaria, eu, horas e horas a contemplar a Beleza que não tenho, o Dia que não vem. Mas se eu fizesse isso enlouqueceria. Minha alma tem uma ferida que só se cura com um amor de volúpia. Esses amores que unem os corpos e deixam no ar um perfume que embriaga a totalidade dos homens. Longe de ser devassa, esse amor-volúpia não mancha, só limpa, porque já nasceu na limpidez de um tez translúcida, corada pela essência do bálsamo do encanto.
                Eu, hoje, amo um Anjo. Pena que está longe da minha experiência. Um anjo feminino. Mal sabe este anjo que todos meus poemas são seus, porque de seu sorriso brotou. Mal sabe este anjo que todas as minhas aspirações são para contemplar sua beleza morena. Mal sabe este anjo que no meu interior eu investigo seus passos para saber se eles vão se afastar mais de mim. Ai anjo, me guarda, me protege! Queria que você fosse meu sentinela!
                Neste coração que bate profusamente em passos do silêncio há um clamor que nunca cessa. Nele existe um oceano de ventura, as mais altas evaporações de sentimento. Eu quis tê-La e terminei sendo tomado como um alma perdida em um deserto vertiginoso onde o brilho do seu olhar é o sol que me conduz para a verdadeira Miragem.

Olavo Barreto.