domingo, 27 de dezembro de 2015

O silêncio da escrita


Sim, foi por meio disso que tudo começou. Esta cálida hóstia de nossas mãos, cuja imaginação bélica destrona e eleva um cálice na criação. Sim, foi a culpada. Não nos julgue pelo que não podemos ver, pelo que não podemos sentir, pelo que não podemos prever. Nós temos a fé viva, não cremos no ignoto Deus. Tudo isso é tradução, é traição. Na passagem entre a linha e a espada, curvam-se as infantas diante de sua nobreza. Toda adornada no carmim e por baixo da pele, a lua. Sete fadas, sete presentes, sete reinos, sete selos. A cegueira é branca, o voto é branco, calam-se. Sileo e Tielo, quais dos dois Lacan preveniu? Quem é o fingidor que finge tão completamente um para tão longo amor, tão curta a vida? Que tem sangue eterno e asa ritmada, é desdobrável, eu sou? Olha para o céu azul, levanta a mãozinha, quer tocar o céu, tem e não o tem na mão. A festa acabou, o povo sumiu, a noite esfriou, na parte que me cabe neste latifúndio, irmão das almas, porque tinha uma pedra no meio do caminho. Hoje, uma lua morta, na rua torta, na tua porta. Amanhã vai ser outro dia, vai passar, tudo no mundo passa. Ah, estes olhos postos, em mim, de cigana oblíqua e dissimulada, sedutora madame, do cabelo mais preto que a asa da graúna. Podem voar mundos, morrer astros, sobre as ondas no mar de Vigo. De tudo ao meu amor serei atento, um João Evangelista com um pássaro misterioso, porque tudo vale a pena se alma não é pequena, para viver um grande amor. Só em Parságada tem de tudo, e lá acharei a estrela da manhã, seja no mar salgado, ó pescador da barca bela. Famigerado, os que leem o que escrevem, na dor lida sentem bem, igual a uma noite de sono na cama de seu Tomás da Bolandeira, uma felicidade clandestina. Silêncio e solidão, eu Severino, de tantas Marias, um eu sou.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Carnavalização


Tinha ido ao bloco de carnaval sem pensar na vida. Não eram planos que vinham a sua cabeça naquele momento, era a carne. Sim, instintos à flor da pele. Era o corpo que falava, tepidamente, ao som de um remix de marchinhas de carnaval. Alcoolizado, não mais respondia por sua identidade. Era um avatar abastecido pelo inconformismo de ser deixado nas vésperas do resultado do concurso para professor efetivo de uma universidade pública. Não eram as teorias botânicas que agora estavam em diálogo com a sua biologia? Não era um momento para teorizações. O passado o tinha feito mais teórico do que prático, um mártir do inconfessável, do silêncio e solidão, sem catarse. Entre os olhares, entre pessoas, um único sentimento brotava, a incompletude. Andava sem as pernas. Na verdade, o corpo era carregado pela justiça mórbida que o álcool lhe proporcionava. Ela, onde estava? Tentava reconhecer na morena que agora passava um rosto familiar. Por quanto tempo tinham vividos juntos? Simplesmente, o tinha deixado. O concurso tinha sido opção dela. Queria ele apenas continuar como assessor do pai nos assuntos administrativos, mas ela tinha ambição. Hoje terça, na sexta sairia o resultado final. Uma carreira promissora. Solidão. Depois o pós-doutorado no exterior. Solidão. Depois o reconhecimento, uma honraria. Solidão. As teorizações sobre um mundo objetivo, à ponta do cálculo, não resolveriam seu dilema. Mas o carnaval sim. A vida, naquele instante, dava um passo de frevo. Estava passista inóspito da inconclusão. Seu desejo era matá-la. Mas ele sabia que isso era impossível. Não teria em seu sangue o vestígio de cangaceiro que seu bisavô tinha deixado na família. Era justiça que se clamava. Mas onde ela está agora? Aquele verão deveria ter acabado na cama e não no telefonema infame. Olhos de catuaba. Na adolescência, naquele grupo de jovens na igreja. Não imaginava que isso pudesse ser diferente. Eram juras eternas. Ela se enganou, buscou dramatizar a felicidade ao lado de um rapaz de sonho pequeno. Tudo que ela queria era a glória dos altares. Modéstia. Vivia de pernas cobertas, blusas sem decote, e palavras de sabedoria. Afinal de contas, todo este teatro parou no telefone, há alguns segundos. Um ‘grand finale’. Numa noite de calor, às vésperas do ano novo, tinha feito o planejamento estratégico para uma grande empreiteira. Ao som estalado de beijos tinha desenhado a casa, batizado os filhos, marcado agendas para uma taça de espumante que sela as vidas e seus tesouros. Como era engenhosa com aqueles olhos de catuaba. O rapaz queria estar sóbrio de si mesmo, de seus sonhos pequenos, mas se deixou embriagar. Como é que ela pôde? Amor, você sabe que vou ser toda tua, né? Mas, por enquanto, modéstia. Um amor nos tempos da devassa alheia. Estava de pequena bolsa velada. Veste guardiã da vida. Sedas e um grosso oxford tapavam um motivo de alívio e cura das misérias humanas. Um réveillon transpassaria o ano velho teatralizado. Protagonista de fama, teria causado identificação em toda família, menos na irmã dele. Certa vez, a irmã tinha dito que ele saísse dessa. Só você que não vê, mano. A coisa dessa aí é outra. Podia ser tudo, podia ser outra mulher, mas que não fosse o dito ao telefone. Mas que outra? Dinheiro? Talvez pela irmã ser uma solteirona aos 35 anos, um caso com um homem casado, um incesto com ele na adolescência, uma vida de gerente de banco, livre de tudo, teria o direito de tecer os fios do seu destino. O rapaz não tinha tanto dinheiro, tinha um pouco de beleza e vários contatos com quem podia contar na necessidade. Era careta, mas tinha bons amigos. A irmã estava certa. Ela estava em outra. No telefone um alô despretensioso. No carnaval o alô ecoava ao som ritmado das marchinhas. Em cada grito, em cada gargalhada, um alô. Você está aí? Ansioso pelo resultado do concurso, disse que estava. Mas, durante o bloco ele não estava nem era. Pensou em quebrar a garrafa e cortar os pulsos. Viu a polícia. Seria preso ou morto pelo intento. Um grupo de bêbados entoavam a oração do abismo – “oh, meu bem não faça isso comigo não”. Uma lágrima. Estava à flor da pele com seus instintos, mas era nela que pensava. Corpo, som e droga entraram em êxtase sobre aquela existência de identidade perdida. Olha, quero que você escute bem. Ele escutava tudo naquele momento. No bloco, estava surdo. O som o tocava pela vibração, mas a audição estava perpetuada com uma única frase. Um mantra de eterna execução. Eu estou indo embora. O coração tinha parado. Um réveillon tinha feito a vida dançar, mas a música parecia que ia ser trocada, e o par desfeito. Lembrou-se de quando era criança. Na casa da tia passava as férias, sua prima o adorava. Brincavam até seus corpos não aguentarem mais e pedirem arrego no colo materno. Não eram primos naquelas férias. Pareciam uma pessoa só com a caixa da felicidade nos brinquedos. Não bonecas ou carros ou bolas, mas folhas. Brincavam com as folhas do quintal. Brincava com a menina por obediência à mãe. Vivia a personagem. No fim das férias, disse que precisava ir embora. A prima tornou-se lamento. Uma febre incorporou-se na pequena mulher. As férias tinham acabado para ele também com o telefonema. Era personagem também? Não, não poderia ser. Se tinha dado em corpo, sangue e alma. Não quis dizer antes, pois tinha medo que você fizesse besteira. No natal, tinha feito uma declaração de amor, em juras eternas à amada. A família se espantou. Até parecia que o amor era um causo na vida do jovem. Amava, mas, com reservas – era o que pensava o pai e a mãe. Aplausos por todos, descrença pelos produtores da prole. Mas, poderia ser verdade. Estou neste momento indo para o convento das irmãs consoladoras, darei entrada no noviciado. Choques entre o céu e a terra. Febre. O telefone desligou. Amor, amasso, amargo. Não estava no carnaval, estava na quaresma. Páscoa jamais. Um litro de vodca se esvaziava naquele momento. A praia a vista. Uma miragem. Um sopro. Um novo vigor: Armando caminhava sobre as águas. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Uma crônica sobre o posicionar-se



Identidade e subjetividade: ou seja, o indivíduo tem o direito de se expressar por si, de ser ele mesmo. Se será aceito ou não pela "outridade", "o fulano do lado", isso é outra questão.
Alteridade: o sujeito expressa-se de modo interdependente do outro. O "eu pessoal" para existir necessita do definição do "outro". Nesta questão para o sujeito ser ele, "o fulano do lado" tem de dizer isso, deve refletir sua existência. Se este "eu" é negado pelo outro, isso também é modo de confirmar que o "eu" existe. Se é afirmado, a mesma coisa.
Quando tomo decisões, excluo outras, corto vínculos, me posiciono, estou colocando em prática minha identidade, minha subjetividade. E como todo enunciado, "o que eu digo agora", sempre se destina a alguém exerço, nesta prática, minha alteridade.
Se sou ativista, filósofo, teólogo, professor, estudante, vagabundo, "nem-nem"... sempre estarei, com meus posicionamentos, me impondo. Se isso é positivo para o outro ou não; se isso faz crescer o outro ou não; se isso edifica ou não, temos aí questões de moral. Ou seja, se a jovem manceba decide expor sua intimidade, via face, colocando selfies feitas no espelho com a legenda - "sendo linda, sem ser vulgar"-, e você acho isso ridículo (juízo de valor, você deu uma opinião sobre...), ela, apenas exerce, naquele instante, sua subjetividade. Não é disso que trato aqui: juízo de valor. Trato, apenas, exclusivamente, do posicionar-se.
Assim, de modo conclusivo afirmo: deve-se alguém questionar, esbravejar, rasgar o verbo como o que não se concorda (subjetividade). Isso faz com que o "outro" seja lembrando (alteridade).
O que não pode ocorrer é pegar o outro pelo pescoço e arrochar até a morte. Pois você precisa dele para ser, e ponto final.
Sobre questões de moral, não toque na minha, que eu não toco na sua. Viva seu candomblé que eu vivo minha teologia da prosperidade. Cada um tem o céu e o inferno que quer ou merece. Abraços.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Desencanto


Os rios que emanavam águas luminosas
Se encheram de lágrimas que preencheram
As madrugadas de frio e escuridão
Onde era prateado, tornou-se turvo.
Um coração em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

As rimas não cantam mais
Não cantam mais palavras
O silêncio choroso, tornou-se.
As manhãs de alegrias
Experimentaram o eclipse tardio.
As músicas, os romances: desvario.
Um coração em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

O espelho se quebrou
Se quebrou a taça
Se derramou o vinho
Coração ruído em traça.
Onde está a luz e o encanto?
Onde está a plenitude,
A beleza e a felicidade?
Em tão pouca idade
Tive a atitude de amar,
E com palavras-rimas
A uma musa contemplar
Mas hoje, um coração está em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Olhos de esmeralda


Sobre uma pontada do coração
a vida ia se exaurindo...
até se chegar ao estado da plena solidão.

Ah! se esses olhos nunca mais fossem vistos...
Ah! se essa voz nunca mais fosse proferida...
como ficaria minha minha sorte, minha vida?
dos segundos eternos que minh'alma pena
lançando o alto voo do sentimento em ida
sobre o vislumbre procrastinado para crescer mais
em mim os teus olhos de esmeralda, virgem serena.

E este medo de perder-te, amada amiga;
Este medo do vulto que caleja o coração.
Medo que me toma e só cessa, se diga,
quando contemplo a lua cheia da tua aparição.

Ah! este olhar que acalma...
Olhos que abrasam a alma
em sentimento doce e terno.
Não saiam de mim, se diga,
pura, modesta, amada amiga
o espelho que reflete tua alma.


(Olavo Barreto)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Criação


De repente glosa
De repente rima
De repente sina
De repente amor

- uma lânguida espada transpassa o corpo dourado das horas benditas.

- em um relance de luz eterna entoa-se o salmo responsorial das obscuridades.

- cai uma gota de sabor na brancura colada na imensidão do quarto.

- no silêncio um relógio palpita.

Inaudição


Foi aquele som
aquele som inaudível
que transpassou
com milésimos de segundo a minha alma.

Foi aquele som,
cumprimento na penumbra,
que se plantava e não colhia
que se lembrava e ao mesmo tempo se esquecia.

Foi aquele som
a despedida,
o ser real das disparidades,
o leito eterno dos desencontros,
a calma despedaçada,
a alma em chamas,
o sentimento oprimido,
o desabrigado na calçada.


Olavo Barreto.