domingo, 20 de maio de 2012

Minha experiência pessoal com o teatro


Você já foi ao teatro? Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Afinal, o que é mesmo teatro? Passei alguns anos da minha vida sem saber o que é, realmente, o significado essencial deste termo. Sempre no colégio, na igreja... vi filetes de teatro, como sempre, nada de profissional. Já até protagonizei alguns personagens... já participei até de pantomimas... mas nada vai se igualar ao dia que fui assistir a peça “Anáguas”.
Cândida, Maria das Graças e Maria Exaurina (per-
sonagens da peça "Anáguas")
Era uma quinta feira, cheguei ao local com bastante entusiasmo. Afinal, iria pela primeira vez assistir uma peça realmente ostentosa. Cenário escuro, candeeiros acesos... cheiro de alfazema com Capim-santo, sentei no meio do cenário. A peça transcorria entre nós, espectadores, que ao paço do embalo musical do verso “Abraça eu mamãe, embala eu mamãe... tem dó de mim...” entoado pelas atrizes, éramos hipnotizados com aquele ambiente. Eu, no meu ato contemplativo daquela cena, fui transmutado a algum tipo de mundo interior, para uma nova consciência que volta e meia me trazia lembranças inconscientes, como se naquele momento, eu mesmo, fazia parte da peça.
Aqueles nomes, aqueles gestos... me incomodavam. Maria Exaurina, Cândida, a velha Maria das Graças. Como aqueles personagens me incomodavam. Cada palavra soava como uma espada transpassando meu intelecto. A velha que tossia, as poses debochadas de Cândida, as palavras de auto calão de Maria Exaurina. Os cânticos, os gestos. Toda a cinese da peça me transpassou. Não tive tempo de pensar outra coisa, eu tinha sido arrebatado pela arte da teatralidade sublime do momento.
A peça conclui, mas tudo aquilo que foi vivenciado naquele dia sempre volta. O embalar das canções, as expressivas palavras das atrizes, os gestos. E sem dúvida, naquele dia eu soube o que realmente era um teatro. 


A peça "Anáguas" foi por mim assistida no Espaço Nordeste Gurinhém/PB em maio de 2012.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Lembranças das Sextas-Feiras



Ternas sextas-feiras
De pranto e candura
Provei-te muitas vezes
Com a mais tênue usura


Muitos foram os gozos

De tuas formas rasgadas
Dos teus gemidos e choros
Que causam dores abafadas


Ó sextas-feiras de gozo

E muita badalação
acabou já teu ser mimoso


Que tanta falta me faz

Fico carente e nervoso
pelas lembranças que me traz


Disponível no Recanto das Letras: http://www.recantodasletras.com.br/sonetos/2392630

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sobre o inacabamento do ser humano


Há algum tempo venho me debruçando em leituras de ordem psicanalítica. E confesso: como o ser humano possui explicações interessantes sobre seu próprio comportamento. Não é novidade hoje falar em libido, castração, complexo de Édipo; de uma forma ou de outra esses conhecimentos já estão na boca de muita gente. É aquele movimento que nós podemos classificar como vulgarização do conhecimento: já se tornou algo tão (re)discutido, por tanta gente, que já caiu na boca do povo. Vale lembrar que não é "todo povo", mas sim na boca ou no discurso de pessoas que possuem algum tipo de letramento literário e que por alguma inquietação caiu lendo o Freud, o Lacan, etc... Mas o que queremos tratar aqui vai além dos postulados da ciência freudiana. 
O ser humano, como um ser pensante, sempre quis se definir. Colocar-se com uma definição hora pronta, ou as vezes clivada, confusa, etc. isso é praxe da qualidade humana. O que quero chegar com essa afirmação que é considerada chavão dos manuais de filosofia? E justamente demonstrar mais uma vez, de novo, bis (como diria um professor meu de literatura) que o ser humano é um sujeito incompleto. Paulo Freire traz em Pedagogia da Autonomia uma afirmação que desde a primeira vez que eu li fiquei extasiado: "Na verdade, o inacabamento do ser ou sua inconclusa é próprio da sua experiência vital. Onde há vida, há inacabamento."¹ O mestre Freire conseguiu reunir de forma sintética toda a reflexão acerca da experiência de definição do ser humano. Não existe completude, infalibilidade, causa última; por que o sujeito vive na tensão entre sentir-se completo na atualidade do evento e o futuro incompleto que se sugere, ou seja, temos um sentimento de completude efêmero. E isso implicará muitas atitudes. 
Quando o homem não se sente completo, ele vai em busca de uma forma de completar-se. A evolução do indivíduo se dá nessa tensão, como a libido da ciência freudiana. Li em um dos livros da obra completa de Freud que a libido é a pulsão para a vida, o que tem um fundo de verdade. E nessa nossa discussão eu diria que a libido, para a pulsão da vida, é a tensão antes comentada. A prova cabal disso se faz analisar na história humana. Antes se dizia que o homem era superior a mulher, hoje o discurso pregado é o da igualidade (não vamos discutir isso a fundo aqui). Vejamos: em séculos passados essa definição era irrisória, porém o homem moderno hodiernamente a acolhe bem. A verdade antes posta era o superior poder do homem, o que por muito tempo foi considerado verdade absoluta; hoje com o grande sentimento de relativismo permeado na ciência e no cotidiano faz-se necessário que a verdade, antes absoluta, torne-se obsoleta. E uma nova verdade surge para atender as demandas do pensamento humano. Outro exemplo é a efemeridade dos conceitos científicos, psicanálise em um futuro próximo será obsoleta também (se já não é por algumas pessoas). 
E Assim nos propomos a sermos humanos. Pois não sou psicanalista, eu estou psicanalista. Isso nunca vai acabar, e pode até acabar no dia da finitude da vida. Mas, isso também parece não dar conta do conceito de inacabamento, pois muitos vão dizer que a vida continua após a morte. E se a vida continua, continua a tensão, continua o inacabamento, porque afinal somos humanos e estamos fadados a isso.

¹FREIRE, Paulo. Ensinar exige consciência do inacabamento. In: _____. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996; pág.: 50.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ao falar em poesia...


“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
Autopsicografia - Fernando Pessoa

           
Falar é só o que nós sabemos fazer o tempo inteiro. A verbalização é o meio mais eficaz de sobrevivência do ser humano, sem ela estaríamos fadados ao completo caos. E no meio de tantos falares, de tantas verbalizações, de gritos altamente sonoros, de sussurros, de bradações, exclamações; enfim, nesse urro intenso emanado da cabeça e do coração do homem algo surge como o grotesco, inanimado, mas tido como supremo... fonte das mais belas expressões ou dúvidas: a poesia.
Se poesia cantasse, se poesia sorrisse, se poesia amasse... mas você não ama poesia, você é dura. É duro seu estado em um papel como se estivesse com um véu, eternamente velada. De lá não sai, de lá se se escuta o seu ruído. Vive em prisão eterna, vive em confinamento último. Claustro das paixões, terreno de nenhuma confissão. E esse nada dizer tudo. Confiável amiga dos meus sentidos: quero-te em pranto e festa.
Poeticamente deixei meus versos sobressaírem em lágrimas que adormeciam nas dores de um parto. Grito fumegante que a minha musa inspiradora deu ao conceber de forma inversa a mais nova filha da inconsciência, da continência, eterno verbo a se conjugar.
E para se conjugar, falando de poesia, é necessário que o canto seja dos mais suaves, pois não se acredita que um cantor das mais belas liras tenha um coração amargurado, que seja capaz de detonar e fazer sangrar a sua amada afinal. E sobre tudo isso... onde está o valor da poesia? De que serve perder tempo na varanda de casa ao se irritar com os lutadores das palavras que procuram chaves para entrar no mundo da poesia, lutadores que em suas sombras trazem os mais ingênuos leitores que se permitem levar na primeira rima rica que se deixa pela frente... poesia? Não vale nada, no papel, sob o véu de nossa ignorância.
Cartas de amor, irrisórias falácias ao vento, os vibres de uma elegia, a prece, a romaria... tudo em ti poesia se cabe, mas do que adianta se em papel não valeis nada. Quisera eu que a poesia tivesse alcançado a sensibilidade de uma pintura, fraqueza corroborada em pequenas paixões ao qual não se cessa de conotar, denotar, exclamar e até mentir o verbo amor.
Enfeita romance e intriga. Cantiga de ninares das damas europeias. Falando em ti poesia, tu que és das mais sedutoras das meretrizes, da mais feia das moribundas... senha da inconstância.  Onde críticos dão as mais perfeitas fórmulas-chave de sua interpretação.
Canto triste que a lembranças de futuro nos remete, corroendo nosso sentido e solidão em tristezas de amores líquidos. Dirigindo seres oblíquos, por vezes bitransitivos, cheios de partículas expletivas de consolo e ação.
Mas sobre ti tento e não revelo completamente toda a face, pois em ti amiga não encontrei completamente teus olhos, apenas uma partícula microscópica de teu coração. Que em luta tento fugir dela como o pescador da barca bela. Tendo por esse remédio me tornado um ser nem alegre, nem triste... que tenta inutilmente jogar fora as cascas inúteis das horas e mesmo assim em labuta interminável reproduzir a poesia.
Não quero falar mais em poesia. Embriaguez súbita ela me proporciona ao ponto de matar o meu espírito pra nunca mais rejuvenescer. Poesia... seja de tarde ou de dia, mas é a noite que ela veste o seu vestido púrpura de desencanto e desilusão. Em contrapartida dá um beijo apaixonado no seu amante chamado razão.



domingo, 16 de janeiro de 2011

Todas as palavras: tênue reflexão acerca de uma poderosa arma da linguagem

Vamos refletir sobre o que são as palavras.

Sabe-se que a palavra é o núcleo da comunicação linguística verbal, sem a palavra não há enunciado, nem muito menos discurso (porém há discursos sem palavras). Diga-se de vista que a palavra é o centro, é o meio por onde a interação verbal se estabelece. Sem a palavra podemos dizer ainda muitas coisas, daí temos em vista o texto não verbal e as mensagens subentendidas, etc; mas mesmo assim o gênero humano a declarou como o meio mais eficaz e próximo para a comunicação.
Há palavras ingênuas, palavras sem sentido (dependendo do contexto), palavras fortes e até mesmo de baixo calão... mas todas são palavras e dignas de respeito. Esse instrumento é tão difundido e tão próximo de nós que eu não vejo a comunicação estabelecida sem ela. Se formos pensar de modo violento vemos palavras que declaram guerras, que destroem vidas, que detonam misérias e fome; mas também vemos o contrário, palavras que levam pessoas para fora da depressão, palavras que curam e libertam, e de uma forma religiosa, que elevam o ser humano ao transcendente.
Vemos assim, a palavra como um instrumento de guerra e paz. E se a vemos como isso, imaginemos os compêndios que carregam as palavras, isto é, os romances, os dicionários, as cartas, os blogs, etc. quando esses suportes de palavras não carregam esses duplos valores e outros incontáveis? Romances que moldam amores e tragédias, cartas que declaram afeto e repúdio, blogs de síntese e antítese... afinal de contas, a palavra não tem domínio específico. É como uma faca, para o corte da carne a fim de matar a fome ou para dar cabo à vida de outrem.
Olhando de forma analítica, não podemos separá-la do uso, a palavra só assume o seu valor através dele. E é por isso que vemos línguas tidas como vivas e mortas. Se a palavra é vivida, é cantada, é lembrada e reformulada ela vive, mas se é esquecida em suas amplas formas ela vira um defunto. Se há uma coisa que efetiva o uso da palavra, é a comunidade que a usa, mesmo sendo um instrumento universal, cada comunidade de falantes a molda conforme sua cultura.
Além dessas reflexões o que me deixa mais contemplativo diante da palavra é o fato das ciências que as estuda, pois o que seria da linguística, da oratória e da gramática sem a palavra? já que essas ciências anteveem o uso e suas formas de expressão. Quantos teóricos já se debruçaram sobre seu estudo, a fim de tornar científico o uso da palavra em suas vastas formas de organização. Acolá de teóricos, vemos também os escritores. Eles que são íntimos desse recurso, que através desse instrumento realiza obras de arte, histórias de mundos extras e até mesmo a reflexão do mundo sincrônico.
Mas sempre a palavra... desde a conversa informal, do bilhete alheio, do recado do Orkut até os poemas e as teses. Lá está a palavra envolta no discurso que a rege, dento do seu ambiente onde está inserida, transmitindo o sentimento ou ideia de alguém. Mas sempre presente cumprindo seu papel de código para a comunicação humana.

Uma nova palavra...

Olá leitores do blog Todas as palavras,

este espaço é para nossa interação, debates e aplausos, mas que seja sempre centrado no âmbito do diálogo mútuo sobre os assuntos postados.

Seus comentários são sempre bem vindos!!!