quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Desconsolo



Chora minha alma, chora
de amargura e desprezo...
Chora minha alma, chora
de pesar em terno ensejo.

Chora minha alma, chora
por não mais ter paciência...
Chora minha alma, chora
pela boca calada à clemência.

Chora minha alma, chora
coração negro e sem som...
Chora minha alma, chora
lágrimas frias de profundo tom.

Olavo Barreto.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sonhos e beijos


Eu sonhei contigo, morena.
Eu sonhei te beijando eternamente
Tua boca de sabor, pura e pequena.

Eu sonhei contigo, morena.
Viajando entre nuvens
Tendo uma luminosa paixão plena.

Ah... nossos beijos
sonhei como um homem sonha com sua amada...
Tu, vestida de branco, sorria para mim
Eu, de vestes simples, caminhava ao teu lado
Tu, com palavras doces, contemplava meu coração
Eu, com um abraço terno, te abraçava em comoção.

Éramos perfeitos.

A luz do nosso olhar ofuscou o brilho da lua dos amantes.
E o sol não mais aparecia,
Porque o nosso beijo era mais intenso,
Do que a própria luz do dia. 

Olavo Barreto.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Confissões



Ai, minha Morena dos Encantos...

todos os dias penso na tua beleza. Como eu queria ser Homem o bastante para poder ter só o teu olhar. Teus olhos são como um sol que nunca passa. Mesmo diante da noite, o teu brilho permanece intacto. Não podem as trevas te tocar; não podem as trevas te amarrar; porque você é toda luz. Se o meu coração que era uma nuvem escura, apenas com a tua presença, se tornou centelha de amor, imagina se tu voltasses toda para mim?
Ai, a tua luz me transpassaria... Seria eu um ser todo amor. Seria eu um ser de luz como tu, Anjo de suprema beleza.
Nas noites de pensamento vulto, não consigo dormir sem contemplar no meu coração a tua imagem. 
Virgem eterna das saudades: foi assim que te nomeei, desde a última vez que trocamos palavras. Minhas palavras, tão monótonas, cumpriam a escala normal do tempo, afirmando banalidades. Tais palavras, mascaradas de nenhum sentimento, desejavam revelar-se para ti como um mel apaixonado.
Ao ver-te, amada, sob o crepuscular da manhãs, nas horas médias entre o viver e o repouso, meu coração dói. Tenho a maior dor que uma alma pode sentir. Sem nenhuma intervenção feita pelo braço, que arrasa o peito, que quebra o cristal do corpo. Sinto uma dor imensa. “Dor que desatina sem doer”, como o amigo Camões revela. Eu sofro, por mim mesmo, porque tua alma não se volta para mim. Ai como desejo sentir tua alma respirando junto a minha, sincronizando os cânticos espirituais que proferem nossas bocas no êxtase da bonança, do laço, do eterno dar-se em pleno sentimento. 

Olavo Barreto.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Quantas páginas são precisas para contemplar uma manhã inteira?


Hoje eu decidi escrever. É preciso mais escrever, para mais viver! É preciso juntar um montante de páginas para "contemplar inteiramente uma manhã". Na ponta do lápis, os dedos no teclado. Quis ser Manoel de Barros para desvendar o amanhecer. Mas não qualquer amanhecer. O amanhecer da completude. 
Eu mesmo estou me desafiando. Não posso contemplar o crepúsculo deste dia sem ver um montante de páginas que relatam o respirar das horas. 
Portanto, meu leitor, se quiseres ler o uma alma, aqui está ela nua. Tirei a roupa da vaidade e me deixei contemplar no puro momento da leitura. 
Se poesia farei, nem eu mesmo sei. Sei que escrevo e "cumpro a sina". 

Eu, me sentido poético e meio no limiar de uma tarde. 

Olavo Barreto.


sábado, 10 de agosto de 2013

Tudo que eu queria era fazer um último poema de amor

                Neste início de manhã eu pensei devotamente mais um vez no Amor. Você que tantas vezes toma o coração dos homens como uma volúpia eterna; que enche os corações de vigor e superação; que dá sentido à vida quando não há mais chances para vender pelas próprias forças. O Amor é um antídoto para a alma em desespero, combustível para que todas as manhãs eu possa pensar em você novamente. E por isso todo o verbo que eu sugiro tem cuidado para de alguma forma se esbarrar em você: porque você me deu o ar que enche os pulmões cheios da fumaça da indiferença, expulsando-a; me deu o correr do sangue clamor da juventude eterna e da imortalidade do sentimento.
                Amor, eu queria que meus versos, meu sempre último poema de amor, tivesse o seu efeito. Ai amor, como eu sofro pelas linhas rimadas. Como sofro pela palavra nunca dita, o olhar desviado, o sorriso contido e o sentimento cortado. Eu não queria nunca me cortar, sangrar sem necessidade, mas é impossível neste sentimento não se cortar, não se arranhar, não amarrotar o convite à esperança plena.
                Eu invejo os voluptuosos amantes. Cheios de vigor no seus encontros. Quando os amantes tocam a alma, um fluido de sintonia e prosperidade invade o ar. Fico inebriado pelo profundo beijo que irradia uma luz imensa que clareia todo o meu ser - quase nulo em tudo. Ficaria, eu, horas e horas a contemplar a Beleza que não tenho, o Dia que não vem. Mas se eu fizesse isso enlouqueceria. Minha alma tem uma ferida que só se cura com um amor de volúpia. Esses amores que unem os corpos e deixam no ar um perfume que embriaga a totalidade dos homens. Longe de ser devassa, esse amor-volúpia não mancha, só limpa, porque já nasceu na limpidez de um tez translúcida, corada pela essência do bálsamo do encanto.
                Eu, hoje, amo um Anjo. Pena que está longe da minha experiência. Um anjo feminino. Mal sabe este anjo que todos meus poemas são seus, porque de seu sorriso brotou. Mal sabe este anjo que todas as minhas aspirações são para contemplar sua beleza morena. Mal sabe este anjo que no meu interior eu investigo seus passos para saber se eles vão se afastar mais de mim. Ai anjo, me guarda, me protege! Queria que você fosse meu sentinela!
                Neste coração que bate profusamente em passos do silêncio há um clamor que nunca cessa. Nele existe um oceano de ventura, as mais altas evaporações de sentimento. Eu quis tê-La e terminei sendo tomado como um alma perdida em um deserto vertiginoso onde o brilho do seu olhar é o sol que me conduz para a verdadeira Miragem.

Olavo Barreto.

                

domingo, 30 de junho de 2013

Sobre o tempo nas horas da vida


As vezes preciso escrever alguma coisa para me concentrar em outra escrita "mais obrigatória" do que a que faço neste momento. E por conta disso é que tomo a liberdade de refletir sobriamente sobre o tempo que gastamos, ou melhor, procrastinamos, nos momentos em que devemos dar maior atenção ao trabalho da última hora. 
Sentimento de fuga. Essa é a verdade. Mas, porque fugimos? Existe uma razão para fugirmos de tudo e não tornar, pelo menos por enquanto, ao nosso trabalho do agora. A felicidade é um lugar cheio de ternura e afeto, na felicidade encontramo o espaço que a falta de liberdade nos dá. Dessa forma, quando nos propomos a seguir um caminho que está proibido naquele momento, queremos, na verdade, sermos livres. A liberdade é o sentimento mais vil que a última hora pode nos oferecer. Tomamos a liberdade de ser aquilo que não fomos convidados a assumir. Assumimos um tempo que não é nosso, sendo por inteiro nosso, a partir da palavra em sua magna ostentação do agora. 
E assim a vida se esvai. E com a vida o tempo. O Senhor dos Destinos, o filho máximo da decisão. O que cura e o que mata. Quanto o tempo já não nos feriu com seu elixir de gosto amargo e forte? E nestes momentos de fuga tomamos expressivamente mais um gole desse elixir que esvai nosso pensamento. Uma droga que nos eleva psicodelicamente, mas, pela força da consciência, de forma efêmera perdemos o Senso do Eterno e caímos na pontualidade do momento que grita com a força de uma multidão em guerra: VOLTE AO TRABALHO! 
E neste momento a vida não é mais um deslise completo sobre os mares. Passamos do tempo que não acaba para o escorrer da água quente sobre as habilidosas e descansadas mãos. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Introspecção



Hoje descobri que só consigo ser complicado. É uma dádiva que adquiri com o tempo e acho que vou levá-la para a vida inteira. Não é ser complicado por ter de complicar os fatos por misturar as pontas dos fios em diferentes hastes de forma a embaralhá-las. Minha forma de complicação é outra: algo que não está no mundo sublunar e pedestre. Também não estou vivendo na órbita da lua, embora minha carta astral diga que eu sou desse modo. A minha complicação é de ordem banal (que nem sempre é minha, instaurando aqui a primeira confusão de si mesmo). São as banalidades que não dou conta. Ser complicado é ser dependente.
Clarice Lispector inicia A hora de estrela dizendo que “tudo no mundo começou com um sim”. Pois, é. Isso não cabe na minha cabeça, porque antes de dizer o sim eu tenho de me curvar aos meus consultores internos para perguntar – posso? Meus consultores são muito exigentes e na maioria das vezes dizem não. Nem sempre com um por quê claro, mas sempre definitivo. Das vezes que não atendi aos apelos de meus consultores tive que sofrer com suas indiferenças. Ou seja, eles mandam umas pragas para que a minha luz seja abalada. Transgredir a opinião deles é a melhor forma de ficar à deriva. Desse modo, prefiro não mais ir de encontro com as verdades que eles pregam, pois sempre me prejudico. Na verdade, de certo modo, com todo respeito, e sem querer ofender, eles são uma espécie de encosto. Eles sopram no ouvido.
Com tudo que eles já me oportunizaram, tem uma coisa que eu não entendo, mas aceito bem (ou não). É o fato de eles me reduzirem; sempre fico no ímpar. Não adianta andar muito, procurar muito é como se houvesse uma força que coloca para traz. Um enigma sem fim advindo de uma esfinge severa. Às vezes queria ser eu mesmo, sem precisar ouvir a voz dos consultores. Mas pelos meus cálculos, que eles próprios me ensinaram, devo me libertar quando uma voz mais forte aparecer. Mas como ela nunca aparece, nem eu nunca tive o interesse de procurar que voz era essa, fiquei aqui mesmo plantado. Talvez essa seja a melhor condição de me definir. A condição de planta é a mais aprazível no momento. Mesmo vivo e observando o mundo sob uma ótica única, nunca saio do lugar. Cresço no mesmo canto, com os mesmos laços, e caso eles sejam cortados eu morro.
Teria tanta coisa a relatar, mas os consultores já estão me dizendo que é hora de se falar para dentro. Do mais, só posso dizer: não tenho futuro traçado, por que estou fadado a mudá-lo, até que ele não seja mais meu; não tenho presente, porque os consultores dizem sempre o que não fazer de forma ao presente ser só deles; só tenho passado, porque a lembrança é o único direito de que não fui tirado; e viver é estar na condição de vegetal: vivo, mas parado... até que apareça a nova ordem trazida em voz consultiva. 


Olavo Barreto.