quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sonhos e beijos


Eu sonhei contigo, morena.
Eu sonhei te beijando eternamente
Tua boca de sabor, pura e pequena.

Eu sonhei contigo, morena.
Viajando entre nuvens
Tendo uma luminosa paixão plena.

Ah... nossos beijos
sonhei como um homem sonha com sua amada...
Tu, vestida de branco, sorria para mim
Eu, de vestes simples, caminhava ao teu lado
Tu, com palavras doces, contemplava meu coração
Eu, com um abraço terno, te abraçava em comoção.

Éramos perfeitos.

A luz do nosso olhar ofuscou o brilho da lua dos amantes.
E o sol não mais aparecia,
Porque o nosso beijo era mais intenso,
Do que a própria luz do dia. 

Olavo Barreto.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Confissões



Ai, minha Morena dos Encantos...

todos os dias penso na tua beleza. Como eu queria ser Homem o bastante para poder ter só o teu olhar. Teus olhos são como um sol que nunca passa. Mesmo diante da noite, o teu brilho permanece intacto. Não podem as trevas te tocar; não podem as trevas te amarrar; porque você é toda luz. Se o meu coração que era uma nuvem escura, apenas com a tua presença, se tornou centelha de amor, imagina se tu voltasses toda para mim?
Ai, a tua luz me transpassaria... Seria eu um ser todo amor. Seria eu um ser de luz como tu, Anjo de suprema beleza.
Nas noites de pensamento vulto, não consigo dormir sem contemplar no meu coração a tua imagem. 
Virgem eterna das saudades: foi assim que te nomeei, desde a última vez que trocamos palavras. Minhas palavras, tão monótonas, cumpriam a escala normal do tempo, afirmando banalidades. Tais palavras, mascaradas de nenhum sentimento, desejavam revelar-se para ti como um mel apaixonado.
Ao ver-te, amada, sob o crepuscular da manhãs, nas horas médias entre o viver e o repouso, meu coração dói. Tenho a maior dor que uma alma pode sentir. Sem nenhuma intervenção feita pelo braço, que arrasa o peito, que quebra o cristal do corpo. Sinto uma dor imensa. “Dor que desatina sem doer”, como o amigo Camões revela. Eu sofro, por mim mesmo, porque tua alma não se volta para mim. Ai como desejo sentir tua alma respirando junto a minha, sincronizando os cânticos espirituais que proferem nossas bocas no êxtase da bonança, do laço, do eterno dar-se em pleno sentimento. 

Olavo Barreto.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Quantas páginas são precisas para contemplar uma manhã inteira?


Hoje eu decidi escrever. É preciso mais escrever, para mais viver! É preciso juntar um montante de páginas para "contemplar inteiramente uma manhã". Na ponta do lápis, os dedos no teclado. Quis ser Manoel de Barros para desvendar o amanhecer. Mas não qualquer amanhecer. O amanhecer da completude. 
Eu mesmo estou me desafiando. Não posso contemplar o crepúsculo deste dia sem ver um montante de páginas que relatam o respirar das horas. 
Portanto, meu leitor, se quiseres ler o uma alma, aqui está ela nua. Tirei a roupa da vaidade e me deixei contemplar no puro momento da leitura. 
Se poesia farei, nem eu mesmo sei. Sei que escrevo e "cumpro a sina". 

Eu, me sentido poético e meio no limiar de uma tarde. 

Olavo Barreto.


sábado, 10 de agosto de 2013

Tudo que eu queria era fazer um último poema de amor

                Neste início de manhã eu pensei devotamente mais um vez no Amor. Você que tantas vezes toma o coração dos homens como uma volúpia eterna; que enche os corações de vigor e superação; que dá sentido à vida quando não há mais chances para vender pelas próprias forças. O Amor é um antídoto para a alma em desespero, combustível para que todas as manhãs eu possa pensar em você novamente. E por isso todo o verbo que eu sugiro tem cuidado para de alguma forma se esbarrar em você: porque você me deu o ar que enche os pulmões cheios da fumaça da indiferença, expulsando-a; me deu o correr do sangue clamor da juventude eterna e da imortalidade do sentimento.
                Amor, eu queria que meus versos, meu sempre último poema de amor, tivesse o seu efeito. Ai amor, como eu sofro pelas linhas rimadas. Como sofro pela palavra nunca dita, o olhar desviado, o sorriso contido e o sentimento cortado. Eu não queria nunca me cortar, sangrar sem necessidade, mas é impossível neste sentimento não se cortar, não se arranhar, não amarrotar o convite à esperança plena.
                Eu invejo os voluptuosos amantes. Cheios de vigor no seus encontros. Quando os amantes tocam a alma, um fluido de sintonia e prosperidade invade o ar. Fico inebriado pelo profundo beijo que irradia uma luz imensa que clareia todo o meu ser - quase nulo em tudo. Ficaria, eu, horas e horas a contemplar a Beleza que não tenho, o Dia que não vem. Mas se eu fizesse isso enlouqueceria. Minha alma tem uma ferida que só se cura com um amor de volúpia. Esses amores que unem os corpos e deixam no ar um perfume que embriaga a totalidade dos homens. Longe de ser devassa, esse amor-volúpia não mancha, só limpa, porque já nasceu na limpidez de um tez translúcida, corada pela essência do bálsamo do encanto.
                Eu, hoje, amo um Anjo. Pena que está longe da minha experiência. Um anjo feminino. Mal sabe este anjo que todos meus poemas são seus, porque de seu sorriso brotou. Mal sabe este anjo que todas as minhas aspirações são para contemplar sua beleza morena. Mal sabe este anjo que no meu interior eu investigo seus passos para saber se eles vão se afastar mais de mim. Ai anjo, me guarda, me protege! Queria que você fosse meu sentinela!
                Neste coração que bate profusamente em passos do silêncio há um clamor que nunca cessa. Nele existe um oceano de ventura, as mais altas evaporações de sentimento. Eu quis tê-La e terminei sendo tomado como um alma perdida em um deserto vertiginoso onde o brilho do seu olhar é o sol que me conduz para a verdadeira Miragem.

Olavo Barreto.

                

domingo, 30 de junho de 2013

Sobre o tempo nas horas da vida


As vezes preciso escrever alguma coisa para me concentrar em outra escrita "mais obrigatória" do que a que faço neste momento. E por conta disso é que tomo a liberdade de refletir sobriamente sobre o tempo que gastamos, ou melhor, procrastinamos, nos momentos em que devemos dar maior atenção ao trabalho da última hora. 
Sentimento de fuga. Essa é a verdade. Mas, porque fugimos? Existe uma razão para fugirmos de tudo e não tornar, pelo menos por enquanto, ao nosso trabalho do agora. A felicidade é um lugar cheio de ternura e afeto, na felicidade encontramo o espaço que a falta de liberdade nos dá. Dessa forma, quando nos propomos a seguir um caminho que está proibido naquele momento, queremos, na verdade, sermos livres. A liberdade é o sentimento mais vil que a última hora pode nos oferecer. Tomamos a liberdade de ser aquilo que não fomos convidados a assumir. Assumimos um tempo que não é nosso, sendo por inteiro nosso, a partir da palavra em sua magna ostentação do agora. 
E assim a vida se esvai. E com a vida o tempo. O Senhor dos Destinos, o filho máximo da decisão. O que cura e o que mata. Quanto o tempo já não nos feriu com seu elixir de gosto amargo e forte? E nestes momentos de fuga tomamos expressivamente mais um gole desse elixir que esvai nosso pensamento. Uma droga que nos eleva psicodelicamente, mas, pela força da consciência, de forma efêmera perdemos o Senso do Eterno e caímos na pontualidade do momento que grita com a força de uma multidão em guerra: VOLTE AO TRABALHO! 
E neste momento a vida não é mais um deslise completo sobre os mares. Passamos do tempo que não acaba para o escorrer da água quente sobre as habilidosas e descansadas mãos. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Introspecção



Hoje descobri que só consigo ser complicado. É uma dádiva que adquiri com o tempo e acho que vou levá-la para a vida inteira. Não é ser complicado por ter de complicar os fatos por misturar as pontas dos fios em diferentes hastes de forma a embaralhá-las. Minha forma de complicação é outra: algo que não está no mundo sublunar e pedestre. Também não estou vivendo na órbita da lua, embora minha carta astral diga que eu sou desse modo. A minha complicação é de ordem banal (que nem sempre é minha, instaurando aqui a primeira confusão de si mesmo). São as banalidades que não dou conta. Ser complicado é ser dependente.
Clarice Lispector inicia A hora de estrela dizendo que “tudo no mundo começou com um sim”. Pois, é. Isso não cabe na minha cabeça, porque antes de dizer o sim eu tenho de me curvar aos meus consultores internos para perguntar – posso? Meus consultores são muito exigentes e na maioria das vezes dizem não. Nem sempre com um por quê claro, mas sempre definitivo. Das vezes que não atendi aos apelos de meus consultores tive que sofrer com suas indiferenças. Ou seja, eles mandam umas pragas para que a minha luz seja abalada. Transgredir a opinião deles é a melhor forma de ficar à deriva. Desse modo, prefiro não mais ir de encontro com as verdades que eles pregam, pois sempre me prejudico. Na verdade, de certo modo, com todo respeito, e sem querer ofender, eles são uma espécie de encosto. Eles sopram no ouvido.
Com tudo que eles já me oportunizaram, tem uma coisa que eu não entendo, mas aceito bem (ou não). É o fato de eles me reduzirem; sempre fico no ímpar. Não adianta andar muito, procurar muito é como se houvesse uma força que coloca para traz. Um enigma sem fim advindo de uma esfinge severa. Às vezes queria ser eu mesmo, sem precisar ouvir a voz dos consultores. Mas pelos meus cálculos, que eles próprios me ensinaram, devo me libertar quando uma voz mais forte aparecer. Mas como ela nunca aparece, nem eu nunca tive o interesse de procurar que voz era essa, fiquei aqui mesmo plantado. Talvez essa seja a melhor condição de me definir. A condição de planta é a mais aprazível no momento. Mesmo vivo e observando o mundo sob uma ótica única, nunca saio do lugar. Cresço no mesmo canto, com os mesmos laços, e caso eles sejam cortados eu morro.
Teria tanta coisa a relatar, mas os consultores já estão me dizendo que é hora de se falar para dentro. Do mais, só posso dizer: não tenho futuro traçado, por que estou fadado a mudá-lo, até que ele não seja mais meu; não tenho presente, porque os consultores dizem sempre o que não fazer de forma ao presente ser só deles; só tenho passado, porque a lembrança é o único direito de que não fui tirado; e viver é estar na condição de vegetal: vivo, mas parado... até que apareça a nova ordem trazida em voz consultiva. 


Olavo Barreto.

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre a experiência do Livro


Embora o título do texto fale sobre a experiência do livro, aqui vou falar da minha experiência pessoal de possuir livros. A razão do título estar assim se refere ao majestoso ato do Livro. Este ato é um compósito de emoções que trazem à tona tudo que se refere, emocionalmente, à leitura, que nesta reflexão começa pela aquisição desta peça esplendorosa do conhecimento chamada livro.
Como quase toda reflexão pessoal possui narrativa, esta não seria diferente. É bem verdade a que a voz deste sujeito está cheia de saudosismo e elevação. Sendo épico, mas com um tom menos elevando quando fala de suas experiências leitoras. Pois aí vem a nossa história:
Já faz muito tempo, mas na memória este acontecimento é como se tivesse acontecido hoje pela manhã. A memória, por mais falha que seja em alguns momentos, é sempre eficiente quando algo nos marca profundamente. E este acontecimento, sem sombra de dúvidas, foi imprescindível para que eu possa ser o que sou hoje, ter o que tenho e pensar o que penso. Depois que nós começamos a refletir sobre nossas experiências, percebemos que cada momento da vida é de importância extrema para a nossa constituição como sujeito. Todo aquele discurso sobre a valorização das coisas pequenas é verdade. São os elementos de base que sustentam o grande homem. Peças pequenas, de passível vivência, de plena insignificância momentânea, mas com força destruidora, se for o caso. No nosso caso, a força daquele momento é construtiva, positiva, no entanto, simples. Deveria eu ter meus 09 anos e viajara ao Recife para visitar os familiares. Lembro bem da casa. Era branca, situada em uma avenida muito movimentada. Possuía um grande quintal, três quartos e tudo mais que faz parte da mais comum casa. Mas o segundo quarto guardava um grande tesouro, algo que para mim era inacessível. Entrar naquele quarto era para mim um momento de satisfação. E eu entrava, mas saia do lugar incomodado por não possuir aquilo, naquela complexidade, que para uma criança era muito complexo, no entanto, muito chamativo para mim, mesmo sem muito entender do mundo e das coisas. Era o quarto do Téo. E o que havia nele? Sua biblioteca. Simples. Foram aqueles livros e o olhar de um apaixonado pela leitura que me fizeram despertar. Não me lembro do que dizia, mas lembro de alguns livros de capa dura vermelha, algo parecido com uma Barsa. Não me lembro de ter aberto aqueles livros, mas eles tinham chamado minha atenção. E aí surgiu o vil sentimento: eu precisava de uma biblioteca. Para quê, naquele momento, eu não sabia bem o porquê, todavia, deveria de ter uma biblioteca num futuro bem próximo.
Sempre fui devoto da leitura. Minha mais remota experiência com esse mundo, do que eu tenho lembrança, é de que logo após fui alfabetizado lia tudo que me aparecesse. As viagens para a capital era uma grande festa. Ler aqueles outdoors e depois ser aplaudido por isso sempre foi rotina após os primeiros anos de alfabetizado. Esse também foi o primeiro incentivo que meus pais me deram para hoje me tornar um leitor. E nesse sentido, o incentivo é arma mais poderosa na formação de leitores. Felizmente ou infelizmente — tudo depende da finalidade — o ser humano é vaidoso. Ele precisa de reconhecimento para continuar. Apenas as almas mais sensatas não querem o reconhecimento imediato e instantâneo. Mas como estou em processo evolutivo, como diriam meus amigos espíritas, sou um humano normal dotado de cobiça. E a cobiça do conhecer mundos através da leitura sempre foi uma ótima motivação para se seguir em frente em busca do Mais.
Algo significativo nesta minha formação foi o contato com as bibliotecas desde cedo. A primeira biblioteca que frequentei foi, na verdade era apenas uma estante, a da secretaria municipal de educação, daqui da minha cidade. Uma senhora chamada Ceci, funcionária do local, anotava na sua agenda os livros que eu tomava emprestado. E aí, nessa época, tive um grande mergulho no mundo do Monteiro Lobato, Câmara Cascudo, Ana Maria Machado, e tantos outros...
A minha segunda biblioteca foi a do sindicato rural. Ali tive belas experiências. Foi lá que, pela primeira vez, conheci, e pude apalpar, uma enciclopédia. Aquilo era o maior tesouro que uma criança poderia conhecer. Como eu não podia comprar uma, ficava tirando cópias de algumas páginas para um certo futuro ter a minha própria enciclopédia. Cada imagem, cada termo, era como se o mundo estivesse se desnudado. E eu, mesmo sem muito suporte, estava compreendendo a complexidade dele. Assiduamente, toda semana, era um livro novo. As vezes até dois. O cheiro de local fechado ainda ecoa na minha imaginação, como se o primeiro momento de visita àquele local ocorresse agora.
Sempre fui, também, atrevido, queria ler coisa de gente grande. Me lembro que com uns dez anos de idade, me deparei lendo os sermões de Padre Antônio Vieira. Vou confessar uma coisa: peguei aquele livro só para ver a reação das professoras. Todo mundo ficou impressionado com aquilo. Como um menino que ainda estava no ensino fundamental se dava ao luxo de ler Vieira? Polêmicas à parte, li apenas um dos sermões contido no livro. Não me lembro bem qual era o tema dele, mas com exatidão, me lembro das expressões em latim. Eu, pobre mortal, estava perplexo por não saber o significado daquilo. Embora isso fosse já em pleno século XXI, na minha cidade não existia internet, nem muito menos um dicionário de latim. Mas valeu a experiência.
Minha terceira biblioteca foi a da própria escola. Infelizmente, de surgimento tardio, mas de importante significação. O PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, tinha enviado muitos livros à nossa escola. Daí surgiu a necessidade de desapropriar um espaço usado para depósito dando abrigo aos novos livros. Eu, como um dos amantes mais piegas deles, me ofereci como voluntário para a organização e catalogação do acervo. Foi nesse tempo que li Vidas Secas, Dom Casmurro, Iracema, e tantos outros. Foi um período de devoção aos clássicos nacionais.
No Ensino Médio, a frequência às bibliotecas se reduziram. Mas a leitura não. Neste período comecei a tomar gosto pela literatura popular. Li e comprei muito cordel. Chegou um determinado tempo que eu não consegui ler outra coisa. De tanto ler cordel fiquei com a cognição apurada pela estrutura do verso, ao ponto de quando lia uma narrativa achava estranho, pois não era o mesmo ritmo.
Neste meu relato muitas coisas ficaram de fora. Existiram momentos e momentos importantes na minha formação inicial da leitura. Por que não citar as aulas do Telecurso 2000? Foi lá que tive muitos direcionamentos de leitura. A escola não tem uma parte muito significativa na minha formação. A leitura para a sala de aula sempre foi muito enfadonha, cheia de porquês, às vezes sem nenhum sentido para mim. Era um saco ter de ler aquele livro. Mas quando a iniciativa era nossa, tive bastante êxito.

Minha caminhada continuou e ainda continua. O universo dos livros ainda é o meu fraco. Não posso ainda dizer que tenho uma biblioteca, mas sim, posso afirmar que ela está em construção, assim como, eu ainda, sempre vou estar em processo. Pois os livros nos abrem feridas que são curadas por outros livros que abrem novas feridas. Um círculo vicioso, um eterno processo. Um dia em que o livro nos deixar de chagar é porque o livro não está mais cumprindo sua missão ou nós não estamos cumprindo nossa missão de leitor, ou seja, a de se deixar marcar. Uma boa leitura sempre deixa marcas. As que não deixaram simplesmente foram ou perca de tempo ou simples reconhecimento de letras vazias.



Olavo Barreto.