sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Deleitor de Dom Casmurro
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
Cartas
Eu tenho cartas. Algumas delas guardadas num diário. Sei que posso me arrepender por elas, sei que pode ser libertador às direcionar aos seus destinatários. Mas elas existem e isso já é muito sintomático para quem tem saudade do que se sabe e do que se imagina. Para quê guardar cartas? Para quê guardar mágoas e outros sentimentos? Quem guarda cartas como as que tenho, não difere muito dos que têm bombas, dos que têm armas, dos que têm a fé e o sangue nos olhos para levantar uma muralha ou cair de um penhasco. Eu tenho cartas e isso tudo já diz muito sobre meu eu, minhas crenças e minha impossibilidade de enviá-las. Sou um menino num monte, isolado, na busca de uma solidão interior na qual se ouve apenas a música da melancolia de suas decisões pseudas. Sou esse menino que cria cenários e imagina o mundo no qual se podem viver em elipses ao mesmo tempo em que se expressam orações declarativas com ponto de exclamação no final. Eu tenho cartas. E elas podem ser destinadas ou serem guardadas com túmulos, em confessionários ou nas ondas do mar entre pétalas brancas e perfume da alma de flores. Vêm os dias, vêm as distâncias, o coração acelera, o coração acalma, vêm os pensamentos, vêm os carmas, vem a vida na luz de vela, síncope estagnada. Eu tenho cartas. Uma, duas, três, as que escrevi, as que queimei, as que foram entregues, as que nunca serão, as que ainda não foram feitas. De despedida, de amor, de consolo, de desagravo, de perdão, de culpa, de absolvição. Eu não posso fazer nada se elas existem e quebram todos os dias a possibilidade de ação, porque elas são bombas, são rifles, são armas, mesmo sendo cartas. Eu tenho cartas e quisera eu ter um amigo que as pudesse ler. Um amigo íntimo que não quebrasse o sigilo, o selo dos conteúdos que me amarram em sonhos, em ideações, em fugas e em arrependimentos. Onde está esse amigo? onde está sua face que ainda não encontrei? Na verdade, eu creio na sua existência no moço do espelho, no menino do espelho, no homem do espelho, no velho do espelho, tão somente neles. Somente ele é casa eterna e cofre seguro. E saiba, ele tem cartas. Cartas de condenação, cartas de remissão, cartas que abrem cartas. De futuro elas entendem, profetizas, bruxas, videntes do amanhecer. Só as cartas podem vencer a peste que é padecer nos sentimentos que tornam os meus pés e minhas mãos frios ao sol flamejante. Eu tenho cartas e lerei para você em sonho. Naquele dia em que teu corpo sofrer a maior calúnia de um dia cheio, naquele dia em que teus olhos estiverem ardentes e que o fogo da tua alma queime teus lençóis, em delírio. Nesse mesmo dia, no sonho, irei aparecer em bilocação para te ler as minhas cartas santas, etéreas, de um deus interior que me governa. Eu tenho cartas.
domingo, 26 de abril de 2020
Quarentena
terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
Regras de fogo
Constam em mim as novas regras:
aquelas que minha alma nega;
aquelas que sombram à minha frente;
as que se fixam na minha mente;
as que nunca, agora, se esperam.
Constam em mim as regras de fogo:
as que me fazem um ser todo novo;
as que me luzem e me guardam;
as que centelham de conhecimento;
as que me invadem.
Constam em mim as regras de luzidia:
as que me fundam e em mim nascem;
as que me operam em consolação;
as que mostram o que é duro;
as que sopram, batem no muro;
as que desvendam a minha mão.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
VERBUM
Uma fogueira que estala quando se consome;
uma torrente de águas que afoga a alma de luz;
uma ventania que arrasa o que está mal edificado;
uma chuva que transborda a proteção de um capuz;
um arrepio que torce a espinha em plena madrugada:
assim, e muito mais, é a Tua Palavra no meu horizonte,
essa ponte, esse pórtico, essa escada.
Essa Palavra tão forte de amor e de cruz
cruza sobre os montes a verdade chegada
negando, ainda, a minha turva visão,
o meu não para a vida santa, as mãos postas:
ora levantando o outro, ora centradas.
Mas ainda o fulgor dessa Palavra Santa é tão forte,
tão longo e tão celestial em seu estabelecimento
que por tantos momentos fico cego, surdo e mudo,
caio em sono profundo e chego a esquecê-la...
Mas como num sonho,
vem este professor com Ela na mão:
Santo Antônio, São Domingos de Gusmão,
São Tomás, Santo Inácio de Antioquia,
São João da Cruz, São Luiz Maria
apontando o caminho certo,
a luz da alma, a plena guia.
Acordo: volto ao que sou, ao que professo,
e em claridade volto a adormecer,
a sonhar o sonho dos justos,
a cantar o salmo do alvorecer,
a celebrar o sempiterno
para eu nunca me esquecer:
o Supremo Amor da minha vida.




