domingo, 9 de setembro de 2012

Depois de ouvi-la pela última vez



Dedo a dedo, nós fomos nos afastando nesta fria madrugada.
Nossos corpos, tão esplêndidos... não possuem a clareza das nossas antigas manhãs.
Nossas tardes, mutáveis... passam de segundo em segundo procurando os caminhos convexos da indiferença.
Ganhamos ignorâncias que apartam nosso coração com um mortífero fel.
O silêncio se tornou a música desesperada de uma respiração de ofegante inconformismo.
Sem direção, eu tomei o caminho do sul, e você tomou norte. Novas vibrações...
As músicas fúnebres são o acalanto daquilo que era doce e terno.
O inverno é a estação da minha nova qualidade, viver e sonhar depressão.
Triste verbo que tenta presumir e acaba desfeito, do pretérito subjuntivo imperfeito.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As Marcas



Ninguém passa nas nossas vidas sem deixar sua marca. Todos nós somos marcados pela personalidade de alguém, seja de forma direta, pelo contato diário, pelas conversas corriqueiras, os bons dias apressados, os desentendimentos e as pequenas confraternizações; ou pelo contato indireto, a influência de alguém da mídia, ideólogos, pessoas distantes à nossa realidade material...
Seja de uma forma ou de outra, essas pessoas cumprem o papel de atuar no teatro da vida, deixando em nós sua impressão digital. É interessante observar que isso é cíclico. Nós também estamos deixando nossas marcas na vida de outrem. Esse aspecto da vida em sociedade é sublime, pois nos formamos como seres humanos dotados de qualidade, não de forma separada, mas em construção comunitária. Eu me construo, e comigo, construo o mundo matizando as cores que permeiam nossa realidade.
A chegada do fim do ano é a maior festa de nossas culturas, seja ela ocidental ou não. O “réveillon” é um ato celebrativo onde mais um ciclo se completa, o nosso trabalho de marcar vidas completa mais uma etapa. Para uns, será a conclusão de um trabalho que durou a vida inteira, e para outros mais, será o começo de um trabalho cansativo, duradouro e gratificante. Nessa nossa labuta, marcamos uns com mais intensidade e outros com menos, e assim, sofremos pelas duas vias, mas esse sofrer nem sempre é ruim, nós é que não nos acostumamos com a face branda do sofrimento deixando perpassar a sua face negra.
Seja como for, devemos apenas viver e deixar nossas marcas por aqui, pois quem não está fazendo isso, simplesmente não vive, porque manchar o quadro da existência com os nossos dedos para misturar as cores  do cotidiano é a coisa mais produtiva que podemos fazer nesse estágio evolutivo para a outra margem, por nós não conhecida. E até lá: mais um ano novo, mais um “réveillon”, mas uma etapa concluída, porém, não conclusa.

Texto produzido na véspera do final de 2011.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre sexualidade

Um tema bastante velho, mas sempre volta com o vigor que ele próprio transmite. Afinal, um ser humano, dotado de emoção e sentimento, não pode deixar de fora das suas divagações, o tema da sexualidade, pois o SER é completamente sexual. Na maioria das vezes, tudo se define a partir do sexo da coisa. E eu, como exímio exemplo desta espécie, cheia de desejo sexual, tentarei traçar o que venho percebendo sobre a sexualidade hodiernamente. Pois, assim como a identidade do ser humano, a sexualidade, vem se moldando com o passar das gerações. E isso é fruto das escolhas e processos humanos que regulamentam o caráter desses viventes num planeta chamado Terra.
Nunca li a História da Sexualidade de Michel Foucault, tenho pretensão de lê-la, pois pelo que vi em alguns sites é um dos principais ensaios filosóficos acerca do tema. Com certeza, quem já a leu, deve ter mais propriedade a tratar do assunto. Mas, não citando aqui o cânone sobre, resta comentarmos nossas impressões particulares, frutos de nossos empirismos, que por algum momento serviu para que uma mente iluminada tomasse como exemplo na formação de uma ideia. Já ouvi em algum lugar que, quem tem opinião não tem razão, e a ciência é a fonte mais segura de se encontrar essa razão, portanto, todos nós para estarmos seguros do que falamos devemos-nos portar de saber científico. De fato, a ciência tem muito a dizer, mas como ela é uma criação humana, por consequência ela é falível. Assim também como esta observação sobre, como se diz voluptuosamente em francês, sexualité. Portanto, vamos elencando o propício, e depois vemos as falhas…
Sexualidade é um termo muito amplo, e a princípio, não nocivo. Afinal, todo contato que a criança possui com a mãe, desde sua concepção, está ligado à relação entre corpos, que de forma mais restrita, refere-se ao sexo. Ou seja, o olhar, o cheiro, a sensação de segurança é fruto de algo menor, mas, no entanto, basal. A sexualidade é, assim como a bondade, a fraternidade, etc., algo que une pessoas, havendo sempre a comunicação, entre estas, em volta de um conceito. O sexo é o fruto dessa comunicação, algo menor, mas de bastante força, pois é dele que advém a vida. A religião cristã vê o sexo, dentro dos parâmetros conjugais, um trampolim para se chegar a Deus. Pois, se a criação é vida, e o sexo favorecendo esta, temos algo de caráter divino. Além de ser uma das melhores terapias existentes, de grande relaxamento após o ato. É o momento em que duas almas se completam, dois seres se sujeitam, se igualam. Enfim, é um elemento essencial para o bem viver. Todavia, atualmente, este elemento tem usurpando a vitalidade que antes possuía. E tem feito mais malefícios, do que benefício se for considerar a amplitude que ele tem tomado.
Em termos de comportamento humano, tudo é um processo. Não podemos fazer julgamentos de casos isolados sem antes tomar um olhar contextual. A ação de hoje é fruto de uma história, de um valor que está imbuído na própria ação, e que advém de um longo período de acontecimentos viabilizadores da ação que vemos hoje. E sobre isso, é bem verdade a afirmação que um pensador disse “entre o céu e a terra, nada é novo”. Nada é novo, mas a cada dia, vemos novas nuanças das coisas existentes. Sexo é a coisa mais antiga do mundo! e, no entanto, ele nunca foi o mesmo em todas as épocas. Houve um tempo que a prática sexual era tida exclusivamente com fins procriativos. Neste tempo a posição sexual conhecida hoje como papai-mamãe, possuía outro nome, era a posição missionária. Ou seja, o ato procriativo era uma missão, algo santificador para quem seguia este preceito. Houve um tempo também, que o contato visual entre homem e mulher era proibido. A mulher não podia ver os órgãos genitais do marido, portanto, a cópula era realizada de costas. Aconteceu também de muitas mulheres terem seus clitóris mutilados, pois se pregava que o orgasmo era satânico. Da mesma forma que muitos homens tiveram seu escroto mutilado, ou por ter realizado perversão sexual ou por prática de pureza. Mesmo sendo um ato bom, o ser humano já o considerou um malefício.
Com a revolução dos costumes, durante o século XX, o sexo vem ganhando um novo valor. A combinação sexo e drogas é um boom para emoção dos jovens das décadas de 60. Aliado a este novo estilo de ver o sexo está a mídia, grande propagadora das ideias de massa. Ela é a responsável pelo que eu chamo de sensualização do pensamento, um tipo de ideologia imbricada em cada passo dado pelos veículos de comunicação. É através dessa ideologia que as crianças estão começando mais cedo à vida sexual, no que diz respeito às práticas subsequentes e anteriores ao próprio ato. Meninas e meninos têm aproveitado de forma efêmera o espaço da infância. De fato, reconheço que o ser humano, passa por um processo para que o seu libido esteja concentrado para a procriação, mas atualmente nossas crianças têm chegado à fase genital, segundo Freud, com menos idade. Nossos pré-adolescentes têm procurado muito conhecimento acerca das práticas sexuais e os adjacentes dessa. A infância deslumbrada pela inocência tem dado lugar à efervescência fálica promovida pela mídia. Notem que o culto ao corpo, a pregação de liberdade sexual a todo custo, têm sido amplamente divulgados em comerciais, novelas, noticiários, programas de humor, etc. Nunca se vendeu tanto sexo, como nesses tempos. Em territórios acadêmicos sempre se prega um niilismo absoluto, como se tudo fosse mentira. Essa ideia é tão obsoleta e irracional que todo dia se prega a verdade nas revistas de boa forma, nos programas de entrevista, etc. Não tem como correr, não existe lugar para se esconder. Você vai cair de qualquer maneira no abismo do sexo, porque ele está em tudo. Mas não é o sexo da posição missionária, é o sexo capitalista, que obriga a você está na moda, pois não vai arrumar namorado; que obriga a você sair do armário, para ser uma Queen cheia de glamour, sendo, na maioria das vezes, uma grande mentira. Na verdade, o ser humano não anda neste ritmo que a mídia impõe. A prova disso são as lotadas clínicas psiquiátricas, repletas de corações amargurados, feridos por não se sentirem completos. Mas é assim mesmo, quanto mais incompleto, mais se vende. É verdade, como já disse Paulo Freire, o ser humano é incompleto, no entanto, essa incompletude deve o impulsionar à mudança. Já a incompletude, efeito colateral da mídia, não possui fator regenerativo.
Já ouvi alguém bastante lúcido afirmar que cada época possui uma identidade, e as gerações posteriores à época passada tentará superar a identidade por ela pregada. Depois de muita repressão, vêm os tempos de libertação, mas depois e volta a ser contido. Acredito que estamos sofrendo uma renovação de valores, que diferente de épocas passadas, terá um processo lento de consolidação. Temos que aceitar, estamos doentes por sexo. O sexo exagero, sem amor, nos tem colocado para baixo como espécie. A busca por emoção tem custado muito caro para nossos jovens, e consequentemente quem paga é toda civilização. Essa doença tão voraz tem imposto a iniciação sexual de uma maneira tão vil que os jovens atualmente têm uma grande dificuldade na definição sexual. Com mais frequência vemos relações de dupla orientação. Sei que o ser humano possui certa inclinação para a clivagem de valores, mas isso está acontecendo rápido de mais, em frações de segundos. Sou muito humanista, e muito flexivo, mas temos que ter uma posição fixa em certas ocasiões. E sobre sexo a minha está bem definida aqui, o sexo deve ser algo natural. A artificialidade dele está fazendo com que nós tornemos plásticos, nem sempre biodegradáveis, nem sempre prontos para uma reciclagem. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dom da repressão



Educação: um tema que nunca sai dos nossos diálogos. Na escola, na igreja, na mídia, no bar... não existe lugar para se falar em educação. Já me peguei um dia falando de "educação" em um hospital, num velório, durante um culto religioso; mas por que o homem insiste em falar nesse assunto? Afinal, não há nada de novo no tema, se formos pensar por um viés popular. Mas, o que eu quero falar hoje aqui não é sobre a educação em si, mas sim, algo que permeia e nossa a educação, talvez permeou a minha, permeia a sua, e vai permear a dos nossos filhos. 
Imagine uma criança sem malícia nenhuma em seu peito. Limpíssima, alma de brilho intenso. Mas logo é colocada dentro de um vaso. Este vaso possui tintas diversas, umas mais finas, outras grossas, outras claras ou escuras... a criança de branca vira um emaranhado de cores. Como sabemos, as cores possuem personalidade, o azul transmite tranquilidade, enquanto o preto luto (para os orientais o luto é branco...), as cores da alegria são amarelo, vermelho... e logo este novo ser vai se delineando nessas cores. A criança nasce limpa, mas a cultura vai imprimindo na sua personalidade o que se deve ser, ou não ser. Em minhas divagações filosóficas fico refletindo sobre essas questões, e cheguei a mais uma nova indagação: somos seres programados? será o que somos, quanto a nossas características, seres inatos? Pensando e repensando, talvez não. Quem é que nos deixa preconceituosos? Onde percebemos o caminho da "verdade" e o da "não-verdade? A resposta é simples: a herança cultural.
Só pela carga cultural que carregamos nas costas desde nossa concepção materna é que nos tornaremos os sujeitos que somos. O contato com a voz da mãe, o primeiro contato visual com o mundo, as primeiras palavras... são elementos que nos forjam dentro da cultura no qual estamos imersos.
Mas, o que tudo isso tem haver com "educação"? tudo isso também é educação. Uma educação para a vida, que forja a vida, que faz com que eu seja eu e você seja você, nos assumindo como sujeitos. No entanto, não é isso que queremos tratar aqui.
Mas o que acontece mesmo em termos de educação é a "repressão". Nossos sentidos desde cedo foram condicionados a querer apenas um tipo de coisa, uma concepção unívoca, um caminho a seguir... Por que rotular os caminhos como correto e errado? o que mesmo determina que algo será ruim ou bom? se formos investigar, no fundo de cada concepção de coisa certa está aquilo que valora a vida, ou seja, se não proporciona a vida não pode ser considerado o correto, o aceitável. Isso tem um fundo de razão. É preciso que a vida possa ser valorizada para que o ser humano possa caminhar, existir e compartilhar experiências, forjando outros homens. Mas nos esquecemos que nessa nossa caminhada, enquanto forjamos homens, estamos pregando a pedagogia da repressão. Por mais que se diga "pregamos a democracia", "todas as vozes possuem vez", nesses mundos imaginários sempre haverão pequenas vozes não ouvidas, insignificantes. Mas existe uma onda ainda pior, algo que não se perdoa. Não se pode nem enunciar, mas todos nós estamos fadados a isso, e esta lástima reside no nosso subconsciente. É algo que nem a maior eloquência na escrita poderá lhe transmitir. E talvez nem seja preciso.
O ser humano possui um verdadeiro dom para a repressão. Dom de calar a voz até do mais falante. De quebrar o passo do mais andarilho, de apagar o fogo do mais ardente. Enfim, de ofuscar o brilho de uma felicidade. Não é preciso dizer mais nada, pois eu e você temos esse dom.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Declarações


Você conseguiu extrair a maior porção de sensibilidade que um homem pode ter. Sem pressa, com poucas palavras, soube demonstrar beleza e sentimento através das palavras soltas, dos pensamentos vagos, nas ações nem sempre perceptíveis. O amor se escondia em cada passo dado, em cada olhar sumido, em cada suspiro abafado. Aquilo que latejava o coração, fazia com que a alma em esplêndido êxtase conhecesse uma eroticidade velada que clama a chama da consumação. Mas, o tempo foi o inimigo, a ingenuidade o veneno, para que essa chama diminuísse, mas ainda em brasa, nunca se apagasse. 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Poema publicado em antologia nacional



Concurso Nacional Novos Poetas 2012prêmio Sarau Brasil é um concurso que tem por objetivo demonstrar como está a literatura brasileira hoje, apontando principalmente, que ela está viva e continua a todo vapor celebrando a vida e a poesia nos mais diversos estilos de poetas e poemas. Como o concurso é de âmbito nacional, foram selecionados autores de todo país. Uma seleção acirrada, pois entre os mais de 2000 (dois mil) inscritos, apenas 250 (duzentos e cinquenta) autores foram escolhidos para fazerem parte da antologia que registra os melhores poemas selecionados neste concurso.
A divulgação do concurso se deu nas mais diversas mídias. Teve-se apoio principal da TV Cultura e TV Brasil, além das parcerias com as universidades federais de Pernambuco e do Rio de Janeiro, bem como da Empresa Brasil de Comunicação. O concurso, para sua efetivação, foi promovido através de edital público, e a antologia sai publicada pela editora Vivera, com sede em Cabedelo/PB.
Tive conhecimento do concurso na universidade, faço curso de graduação em Letras Português na Universidade Federal de Campina Grande. Então, tomei a iniciativa de enviar um dos meus poemas mais lidos na página que tenho no site Recanto das Letras. O poema selecionado pelo concurso é chamado “Versos da Verdade”, poema que grita a fim de saber onde está a verdade inibida pelos controles da sociedade. O mesmo poema encontra-se na página 218 da antologia, e eu o considero um grande marco em minha produção de escrita, porque foi a primeira vez que tive algo publicado dos meus textos de criação.

Matéria publicada anteriormente em <http://gurinhem.com/noticia?id=1144> no dia 28.06.2012

domingo, 20 de maio de 2012

Minha experiência pessoal com o teatro


Você já foi ao teatro? Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Afinal, o que é mesmo teatro? Passei alguns anos da minha vida sem saber o que é, realmente, o significado essencial deste termo. Sempre no colégio, na igreja... vi filetes de teatro, como sempre, nada de profissional. Já até protagonizei alguns personagens... já participei até de pantomimas... mas nada vai se igualar ao dia que fui assistir a peça “Anáguas”.
Cândida, Maria das Graças e Maria Exaurina (per-
sonagens da peça "Anáguas")
Era uma quinta feira, cheguei ao local com bastante entusiasmo. Afinal, iria pela primeira vez assistir uma peça realmente ostentosa. Cenário escuro, candeeiros acesos... cheiro de alfazema com Capim-santo, sentei no meio do cenário. A peça transcorria entre nós, espectadores, que ao paço do embalo musical do verso “Abraça eu mamãe, embala eu mamãe... tem dó de mim...” entoado pelas atrizes, éramos hipnotizados com aquele ambiente. Eu, no meu ato contemplativo daquela cena, fui transmutado a algum tipo de mundo interior, para uma nova consciência que volta e meia me trazia lembranças inconscientes, como se naquele momento, eu mesmo, fazia parte da peça.
Aqueles nomes, aqueles gestos... me incomodavam. Maria Exaurina, Cândida, a velha Maria das Graças. Como aqueles personagens me incomodavam. Cada palavra soava como uma espada transpassando meu intelecto. A velha que tossia, as poses debochadas de Cândida, as palavras de auto calão de Maria Exaurina. Os cânticos, os gestos. Toda a cinese da peça me transpassou. Não tive tempo de pensar outra coisa, eu tinha sido arrebatado pela arte da teatralidade sublime do momento.
A peça conclui, mas tudo aquilo que foi vivenciado naquele dia sempre volta. O embalar das canções, as expressivas palavras das atrizes, os gestos. E sem dúvida, naquele dia eu soube o que realmente era um teatro. 


A peça "Anáguas" foi por mim assistida no Espaço Nordeste Gurinhém/PB em maio de 2012.