domingo, 18 de junho de 2023

Para descalfruir


No dia 31 de maio de 2023 veio a lume pela minha astúcia em publicar algo, a obra descalfruir. O título, para fins de registro, precisa estar com inicial maiúscula. Porém, trata-se de um verbo - e não um substantivo que identifica entidades, razão possível para mantê-lo como Descalfruir. Sobre esse verbo, quero dizer que ele foi fruto de uma investigação linguística. Na minha primeira obra, Luzalma, fiz a união de dois termos, justapostos. Agora, pensei um realizar algo que se desdobrasse em mais palavras. Várias são as leituras possíveis da individualidade dos termos, nessa obra, aglutinados. O elemento descal- pode sugerir "descalçar", o processo de mudança, de alteração, de transmutação. Quanto à -fruir, temos o elemento pragmático, o uso, a recompensa, a bonança ou a necessidade. Para descalfruir é preciso estar, poeticamente, aberto ao retorno recursivo dos significados, dos caminhos rizomáticos do viver, entre a janela e a semente.

Assim, para promover a usabilidade do verbo, coloco abaixo minha intervenção com as pessoas da língua, em seus tempos e modos. 

● indicativo - presente: eu descalfruo tu descalfruis você descalfrui nós descalfruímos vós descalfruís vocês descalfruem ● indicativo - pretérito imperfeito: eu descalfruía tu descalfruías você descalfruía nós descalfruíamos vós descalfruíeis vocês descalfruíam ● indicativo - pretérito perfeito: eu descalfruí tu descalfruíste você descalfruiu nós descalfruímos vós descalfruístes vocês descalfruíram ● indicativo – pretérito mais-que-perfeito: eu descalfruíra tu descalfruíras você descalfruíra nós descalfruíramos vós descalfruíreis vocês descalfruíram ● indicativo - futuro do presente: eu descalfruirei tu descalfruirás você descalfruirá nós descalfruiremos vós descalfruireis vocês descalfruirão ● indicativo - futuro do pretérito: eu descalfruiria tu descalfruirias você descalfruiria nós descalfruiríamos vós descalfruiríeis vocês descalfruiriam ● subjuntivo - presente: que eu descalfrua que tu descalfruas que você descalfrua que nós descalfruamos que vós descalfruais que vocês descalfruam ● subjuntivo - imperfeito: se eu descalfruísse se tu descalfruísses se você descalfruísse se nós descalfruíssemos se vós descalfruísseis se vocês descalfruíssem ● subjuntivo - pretérito imperfeito: que-quando-se eu descalfruísse que-quando-se tu descalfruísses que-quando-se você descalfruísse que-quando-se nós descalfruíssemos que-quando-se vós descalfruísseis que-quando-se vocês descalfruíssem ● subjuntivo - futuro: que-quando-se eu descalfruir que-quando-se tu descalfruíres que-quando-se você descalfruir que-quando-se nós descalfruirmos que-quando-se vós descalfruirdes que-quando-se vocês descalfruírem ● imperativo - afirmativo: descalfrui tu descalfrua você descalfruamos nós descalfruí vós descalfruam vocês ● imperativo - negativo: não descalfruas tu não descalfrua você não descalfruamos nós não descalfruais vós não descalfruam vocês ● infinitivo pessoal: para descalfruir eu para descalfruíres tu para descalfruir você para descalfruirmos nós para descalfruirdes vós para descalfruírem vocês ● gerúndio: descalfruindo ● particípio passado: descalfruído ●



quarta-feira, 28 de setembro de 2022

So-corro


Fonte: ANDRADE, Daniel Everson da Silva; SEVERO, George Glauber Félix; SOUSA, Verônica Maria Rufino de (orgs.) I Coletânea de poesia cordel contos e crônicas do IFPB: homenagem a Bebé de Natércio. João Pessoa: IFPB, 2021, p. 48. Disponível em: http://editora.ifpb.edu.br/index.php/ifpb/catalog/book/404



sábado, 19 de fevereiro de 2022

Psalterium



Ao som da luz,
a consolação;
entre rezas,
apenas afiar.
Ao sabor do cheiro,
configurar
as ondas marítimas
do etéreo.
Nas nebulosas
do mistério:
abrir o livro
da temperança.
Viver futuro
na lembrança;
no limbo se marcar,
agudeza do saltério.
Eremita de paixão
de um deus interior;
o que causa estupor;
o que fura os olhos;
temido por todos:
um eu
que sou os outros.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Imagem



Depois de ler Bachelard
e ficar encantado.

Aquilo que os olhos viram;
que as mentes pensaram,
sob a chama de uma vela,
reluze diante do poeta:
o tônus perfilado,
secretamente,
da imagem.

Torna ver, no pensar,
ao som da imaginação,
a imagem, ela, 
transmutando à mente
na poética do olhar:
criar os mundos, 
sobre os mares,
na leitura-escrita,
sonhar. 

Guarda-se a imagem
no secreto da memória;
tece um manto
para lhe esconder.
Porém, surge ela,
narrando a história,
abrindo o verbo
a nos entreter.

E nos ensina,
e nos disserta,
e nos converte
de paixão.

Sendo ela mesmo
a narrativa
e a poesia
da emoção.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Morte do poeta





Ao ler sobre Fernando Mendes Vianna
por Anderson Braga Horta.

Quando morre um poeta,
morre com ele a necessidade da palavra.
Fez o café, sentou na mesa e escreveu.

Entre as linhas de uma quadra,
o último suspiro. 

Silêncio e solidão, acompanhantes,
vigiam a hora do partir.

Intimidade com a palavra é
escrever todos os dias, prega.
Daí, pega a caneta ou digita,
desliza o dedo entre metáforas.

Quem eras tu, amante da palavra,
tão sozinho entre ternos e danças
com o verbo?
Quem foi teu amor, 
quem foram teus filhos,
onde guardaste tua fortuna?

Quando morre um poeta,
morre com ele a necessidade da palavra.
Tom sobre tom de um silêncio
- que diz tudo -
necroarterial.

sábado, 31 de outubro de 2020

Emulação de Cecília

O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.

Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite? Sobre esse vento?
Sobre essa folha que se vai?¹

Essa folha sou eu.
Caída entre tantas outras
nesse mar noturno,
cujas ondas, nebulosas,
me arrastam solitária,
para o lugar que já se foi.

Essa folha sou eu.
Cândida pétala do azul esverdeado;
resto de magia
para um amor que nunca houve,
para um amor que nunca teve,
para um amor que nunca ousou
em se chamar de amor. 

Essa folha sou eu.
Claustro do meu sono,
etéreo sonho, natimorto. 

Essa folha sou eu.
Cálida, seca, sem mim,
entre tantas outras,
nessa noite luminosa
em que sou arrastada,
conduzida e amordaçada,
findando no calabouço
que me perdeu. 

¹ Os versos compõem o poema "Epigrama n.º 09", em Viagem, de Cecília Meireles.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Deleitor de Dom Casmurro

Gostaria de tratar de Dom Casmurro nesse texto não como um ensaio, não como uma análise crítica, demonstrando um projeto de escritura do tão aclamado Bruxo do Cosme Velho. Gostaria de tratar de Dom Casmurro nesse texto, tão somente como um deleitor, como um apaixonado que extravasa em mundos-outros, em casas-outras, em subjetividades-outras, sendo ele o si-mesmo. Dom Casmurro, para mim, nesse texto, é também um fragmento da minha história literária. E sendo um dom, entre minhas mãos, entre meu corpo, entre as linhas do meu desejo pela escrita-leitura, aprecio cada linha que performa Bentinho, Capitu, Escobar, Dona Glória, Ezequiel, Tio Cosme, os do Pádua, o agregado José Dias, a Sancha amiga, dentre outros que animam aquelas linhas, aquelas frases, que poderiam ser tantas outras, de tantos outros modos, mas são apenas um grifo na página - digital ou impressa - matéria, em primeiridade, de uma memória vegetal, de um livro arbitrário, editora Guarnier, Rio de Janeiro, em 1899. E sendo casmurro, me fecho em meus próprios pensamentos, numa solidão luminosa. Numa solidão acompanhada somente de mulheres e homens escritos entre as tramas que envolvem o amor e a amizade, as desconfianças e as deslembranças, a memória do que se era em tempos de seminário e as que se efetuaram através da morte. Fito nessas linhas as adagas de um narrador ferido em sua própria cólera, em seu ressentimento, e em sua busca por segurar sua bênção e destilar sua maldição através de um tempo que repudia um filho, de modo que o faz nascer na velhice. Queria dizer negando e negando afirmo entre narratários interpelados nessa diegese: Bentinho sou eu. E somos todos nós, e somos cada um de nós a buscar um amigo íntimo, um amigo que visualizou o dom e a necessidade nos olhos de Escobar. Entre palavras dissimuladas, entre a sombra e o frescor de uma vertigem, de uma paixão, os olhos de Bentinho, não sendo oblíquos como os de Capitu, somente veem o mar a tomar para si o corpo e a presença de Escobar. Aquelas ondas que firmaram a calúnia sublimada nas têmporas do destino, se alimentaram do vício de Escobar ao mesmo tempo em que colocaram em discussão o tremor e o temor dos danos subsequentes. Queria dizer que não, mas negando afirmo - que gloriosa sua morte! Tristeza mesmo, daquelas de choro entre o respirar ofegante e o fôlego apertado só o da frase: "A terra lhes seja leve!". E assim me vou, como um menino leve. Me deito numa rede, numa cama, no estrado que me suspende entre as horas antes do sono, no silêncio e na solidão de uma noite que lê romances. No transcurso da história, leio numa série Bom Livro, às paginas brancas, entre algarismos romanos, de um presente familiar, seca e enchente dos livros que vieram. Leio entre espinhas no rosto, depois leio de pastas nas mãos, depois leio de canudo entre os braços; e leio, pois sendo um deleitor busco os vestígios de Bentinho em mim, de Escobar em mim, de Capitu em mim na estante de romances brasileiros. Passo das linhas de página branca que estala entre os dedos para o toque suave e reto no corpo de uma página em que as letras somem e aparecem através das mãos. Não são os mesmos aqueles de minha adolescência, aqueles de minha graduação, aqueles do tempo que reveio com Capitu riscando na árvore o nome de Bentinho; de Capitu e Bentinho brincando de siso; do agregado José Dias com sonhos de Europa; de um passo do seminário para o direito. Penso naqueles que vieram antes de mim e sonharam com tão grandes memórias. Não sendo elas póstumas, eram um rico arsenal de fantasia que aqueceu nossa mente e perseguiu nossas ideias. Sendo casmurro, esse livro firma uma instituição: a daqueles que sendo magos das palavras, criam outros reinos; a daqueles que sendo alimentados pelo verbo buscam de página em página, até a exaustão, a face de si mesmos espelhados na Praia da Glória. E ao fechar a contracapa ou deslizar pela última vez o lance da página, descubro que estou órfão daqueles grandes amigos, reunidos pelo Bruxo, em seu dom de encantar as poéticas matérias para releituras.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Cartas

Eu tenho cartas. Algumas delas guardadas num diário. Sei que posso me arrepender por elas, sei que pode ser libertador às direcionar aos seus destinatários. Mas elas existem e isso já é muito sintomático para quem tem saudade do que se sabe e do que se imagina. Para quê guardar cartas? Para quê guardar mágoas e outros sentimentos? Quem guarda cartas como as que tenho, não difere muito dos que têm bombas, dos que têm armas, dos que têm a fé e o sangue nos olhos para levantar uma muralha ou cair de um penhasco. Eu tenho cartas e isso tudo já diz muito sobre meu eu, minhas crenças e minha impossibilidade de enviá-las. Sou um menino num monte, isolado, na busca de uma solidão interior na qual se ouve apenas a música da melancolia de suas decisões pseudas. Sou esse menino que cria cenários e imagina o mundo no qual se podem viver em elipses ao mesmo tempo em que se expressam orações declarativas com ponto de exclamação no final. Eu tenho cartas. E elas podem ser destinadas ou serem guardadas com túmulos, em confessionários ou nas ondas do mar entre pétalas brancas e perfume da alma de flores. Vêm os dias, vêm as distâncias, o coração acelera, o coração acalma, vêm os pensamentos, vêm os carmas, vem a vida na luz de vela, síncope estagnada. Eu tenho cartas. Uma, duas, três, as que escrevi, as que queimei, as que foram entregues, as que nunca serão, as que ainda não foram feitas. De despedida, de amor, de consolo, de desagravo, de perdão, de culpa, de absolvição. Eu não posso fazer nada se elas existem e quebram todos os dias a possibilidade de ação, porque elas são bombas, são rifles, são armas, mesmo sendo cartas. Eu tenho cartas e quisera eu ter um amigo que as pudesse ler. Um amigo íntimo que não quebrasse o sigilo, o selo dos conteúdos que me amarram em sonhos, em ideações, em fugas e em arrependimentos. Onde está esse amigo? onde está sua face que ainda não encontrei? Na verdade, eu creio na sua existência no moço do espelho, no menino do espelho, no homem do espelho, no velho do espelho, tão somente neles. Somente ele é casa eterna e cofre seguro. E saiba, ele tem cartas. Cartas de condenação, cartas de remissão, cartas que abrem cartas. De futuro elas entendem, profetizas, bruxas, videntes do amanhecer. Só as cartas podem vencer a peste que é padecer nos sentimentos que tornam os meus pés e minhas mãos frios ao sol flamejante. Eu tenho cartas e lerei para você em sonho. Naquele dia em que teu corpo sofrer a maior calúnia de um dia cheio, naquele dia em que teus olhos estiverem ardentes e que o fogo da tua alma queime teus lençóis, em delírio. Nesse mesmo dia, no sonho, irei aparecer em bilocação para te ler as minhas cartas santas, etéreas, de um deus interior que me governa. Eu tenho cartas.

domingo, 26 de abril de 2020

Quarentena


Entro em quarentena com a sensação de que não serei mais o mesmo. Minha alma aporta em outro lugar que desconheço; trafego em territórios em que minha visão turva me leva apenas pela intuição. Quem sou? Me pergunto entre o frescor da névoa que bate em meu rosto e o frio que perfura minha alma. Entro em quarentena, num entrar que nunca esteve tão pesado, apartado de consolações. Entro em quarentena e sofro com a lástima de perceber a minha face e não poder beijá-la. Admiro esses pelos que cercam o meu rosto; as linhas de expressão que calejam; o resquício de uma adolescência matizada da acne e do medo da vida. Entro em quarentena homem, mas sou mesmo um menino. Sinto perfurar em meu peito a angústia que sempre esteve aqui; o medo que sempre foi minha sombra; o cárcere em que arrasto os anos tendo a chave para o abrir. Entro em quarentena, vivendo num deserto. Nele encontramos tudo aquilo que é a miragem de nossos anseios. Nele encontramos a intensidade do sentimento e o espectro de uma realidade possível somente na perturbação do sono. Me falta a água, me falta a comida, mas sobrevivo. Entro em quarentena, porque eu preciso, ou talvez eu queira a benesse de sair dela ensanguentado e sujo, porém curado de meus fantasmas. Percebo que o azul do céu pode ser mais intenso se com fome e sede o olharmos; que a paisagem se torna mais bela e mais acolhedora quando há um grito desesperado por conforto; e que minha pele, tostada pelo sol, recobre um coração ferido, desnorteado, mas que ainda bate. Entro em quarentena, sabendo que talvez eu saia dela. Encontro um mestre que me dá coragem; uma fada que interpreta minha face; e um anjo que dá à luz para o que pode vir depois. Entro em quarentena e me deito entre as areias desse suposto mar quente e abafado. Me lanço, me perco, me encontro e o dia se vai. No escuro, percebo que meu corpo sobrevive de conspirações que planejam me matar com o verde lodo da esperança. Caio nessas areias, levanto-me, tento correr e suplicar misericórdia por ser tão jovem e já ter vivido tanto. Não encontro semelhantes, não encontro o diálogo pleno. Quando entro em quarentena, estou isolado. Quem poderá me entender? Mesmo que passe o tempo de isolamento social, continuarei usando meus equipamentos de proteção individual que mascaram a inflamação que rói meu pescoço ao soluço amargurado da reflexão nunca feita. Entro em quarentena, sabendo que o fim pode estar próximo, que o mundo pode desabar na minha cabeça e que eu posso morrer. E caso morra, quem continuará meus sonhos e receberá minhas vitórias? Depositei com todo amor meus sentimentos para receber em juros compostos uma quantia considerável de ganho. Mas entrei em quarentena, e não sei se com a baixa do mercado das consolações eu tenha o lucro que só pode ser usufruído com o coração em festa e a alma que rejubila de alegria. Meu repouso, meu repouso, meu repouso não está tranquilo. Se pudesse tomaria a cloroquina da restituição, aquela que volta no tempo, ou que apaga a memória do meu luto antecipado. Entro em quarentena pensando em prosperar. Será que consigo? Eu sinto uma febre alta de sensações que me travam; sinto uma falta de ar que aperta o meu peito efetuando a angústia de ainda não me ter; e tenho a tosse que cala minhas palavras e me empurra para o nada. Entro em quarentena. Ela acabará? ela findará? Talvez eu precise de um respirador que possa me ajudar a sobreviver ao meu deserto. Talvez meu oxigênio já não seja o bastante para lutar contra mim mesmo. E padeço, e choro, e calo. Não há medicina para os que usam preto, os que saem nas ruas sem a máscara da autoafirmação, nem lavam as mãos do aceite de si, nem passam álcool gel para dirimir os seus danos internos. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Regras de fogo


Constam em mim as novas regras:
aquelas que minha alma nega;
aquelas que sombram à minha frente;
as que se fixam na minha mente;
as que nunca, agora, se esperam.

Constam em mim as regras de fogo:
as que me fazem um ser todo novo;
as que me luzem e me guardam;
as que centelham de conhecimento;
as que me invadem.

Constam em mim as regras de luzidia:
as que me fundam e em mim nascem;
as que me operam em consolação;
as que mostram o que é duro;
as que sopram, batem no muro;
as que desvendam a minha mão.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

VERBUM


Uma fogueira que estala quando se consome;
uma torrente de águas que afoga a alma de luz;
uma ventania que arrasa o que está mal edificado;
uma chuva que transborda a proteção de um capuz;
um arrepio que torce a espinha em plena madrugada:


assim, e muito mais, é a Tua Palavra no meu horizonte,
essa ponte, esse pórtico, essa escada.

Essa Palavra tão forte de amor e de cruz
cruza sobre os montes a verdade chegada
negando, ainda, a minha turva visão,
o meu não para a vida santa, as mãos postas:
ora levantando o outro, ora centradas.

Mas ainda o fulgor dessa Palavra Santa é tão forte,
tão longo e tão celestial em seu estabelecimento
que por tantos momentos fico cego, surdo e mudo,
caio em sono profundo e chego a esquecê-la...

Mas como num sonho,
vem este professor com Ela na mão:
Santo Antônio, São Domingos de Gusmão,
São Tomás, Santo Inácio de Antioquia,
São João da Cruz, São Luiz Maria
apontando o caminho certo,
a luz da alma, a plena guia.

Acordo: volto ao que sou, ao que professo,
e em claridade volto a adormecer,
a sonhar o sonho dos justos,
a cantar o salmo do alvorecer,
a celebrar o sempiterno
para eu nunca me esquecer:
o Supremo Amor da minha vida.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

SHEKHINAH




Oh! invade, eu me permito,
fogo das delícias celestes.
Eu caio, eu me debruço,
eu rasgo minha vestes
diante da Tua shekhinah.

Oh! invade, eu me permito,
escancaro as minhas portas.
Contigo nada mais importa,
Tu que és o doce alívio,
tu que és o Belíssimo Esposo,
o êxtase da santidade.

Oh! invade, eu me permito,
mergulho, Santo Espírito,
nas labaredas da Tua extensão.
Me possui com sob o anseio
de me tomar-me de novo,
em meu ouvido ter Teu sopro,
em teus braços, nesse casamento.

Seja bem vindo Meu Amado,
à Tua casa que é só tua.
Além dos mares, além da sorte,
na constelação do firmamento
se consome esta alma em paixão.
E na tua shekhinah, a minha casa,
é um templo devoto para Tua adoração.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

À lembrança de um parnasiano


Em 28 de dezembro de 1918, há exatamente 97 anos, partia para o templo das musas, o poeta, entusiasta nacionalista, cronista, amante das letras: Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac. 

Sentado em uma poltrona de sofá, já próximo de sua hora agonizante, pede aos presentes: "deem-me café, papel e pena... eu vou escrever...". Mas a letra e coração do poeta foram silenciados naquele instante. Deixa, nesse momento, um grande legado, dentre eles, a fundação de Academia Brasileira de Letras, na qual ocupou a cadeira dedicada ao poeta Gonçalves Dias. Além de deixar-nos sua vasta obra jornalística, literária e didática. Mas também deixa o amor de sua vida, Amélia de Oliveira, a noiva que nunca lhe abandonou, embora não fossem casados. Um amor complicado pelo patriarcalismo.
Após a morte do pai da moça, que consentia o enlace entre a jovem e o poeta, o irmão dela toma o lugar do pai e impede o casamento por considerar Olavo um homem boêmio, por seus poemas, sua veia dionisíaca. Nesse tempo, passa dias e noites fazendo cartas para a sua amada. Muitas são respondidas com breves frases. Não podendo ter a presença de Amélia em seus braços, dorme com as cartas - a certeza do amor correspondido nas letras. Após a morte do poeta, Amélia usa até o fim de sua vida um anel de esmalte preto com as inciais O.B. e todos os dias, interruptamente, visita o túmulo do amado de seu coração. Um amor eternizado nos poemas. 
Conhecido pelo cultismo da forma poética, Bilac é consagrado na literatura brasileira como o príncipe dos poetas. Título conferido por uma revista chamada Fon-fon, em 1907. Conferencista de grande eloquência, arrebatava a plateia com sua oratória. A única biografia que li sobre ele de autoria de Fernando Jorge, "Vida e poesia de Olavo Bilac", relata que em algumas dessas palestras, sempre sobre assuntos literários ou nacionalistas, pessoas lhe dirigiam louvores. Em determinada vez, uma jovem beijou a sua mão e outra inclinou-se a seus pés, por uma conferência, segundo o biógrafo, arrebatadora sobre a obra de Shakespeare. Talvez por esse ar infante, dentre outras coisas, ele deve ter sido considerado príncipe. 
Quem dera eu ser um escritor do cacife do meu xará. Só tenho a agradecer a meu pai por ter desistido de última hora de me registrar como Felipe. Saindo do cartório, o menino recém nascido, chama-se Olavo. Nome que me marcou em muita coisa, me identifico em muito com o poeta. Desde criança me chamam de Bilac. Espero que esse vocativo me torne igual ao meu xará ou, quem sabe, chegue perto. 
Seja na prosa ou na poesia é um autor que precisamos sempre retornar a ler, pois fornece um material canônico de grande valia literária. E as histórias da literatura brasileira não me deixam mentir. Até onde pude pesquisar todas o citam. O parnasiano pode estar fora de moda, mas é imortal. 
Na imagem, deixo um trecho de sua crônica "Ressurreição".

domingo, 27 de dezembro de 2015

O silêncio da escrita


Sim, foi por meio disso que tudo começou. Esta cálida hóstia de nossas mãos, cuja imaginação bélica destrona e eleva um cálice na criação. Sim, foi a culpada. Não nos julgue pelo que não podemos ver, pelo que não podemos sentir, pelo que não podemos prever. Nós temos a fé viva, não cremos no ignoto Deus. Tudo isso é tradução, é traição. Na passagem entre a linha e a espada, curvam-se as infantas diante de sua nobreza. Toda adornada no carmim e por baixo da pele, a lua. Sete fadas, sete presentes, sete reinos, sete selos. A cegueira é branca, o voto é branco, calam-se. Sileo e Tielo, quais dos dois Lacan preveniu? Quem é o fingidor que finge tão completamente um para tão longo amor, tão curta a vida? Que tem sangue eterno e asa ritmada, é desdobrável, eu sou? Olha para o céu azul, levanta a mãozinha, quer tocar o céu, tem e não o tem na mão. A festa acabou, o povo sumiu, a noite esfriou, na parte que me cabe neste latifúndio, irmão das almas, porque tinha uma pedra no meio do caminho. Hoje, uma lua morta, na rua torta, na tua porta. Amanhã vai ser outro dia, vai passar, tudo no mundo passa. Ah, estes olhos postos, em mim, de cigana oblíqua e dissimulada, sedutora madame, do cabelo mais preto que a asa da graúna. Podem voar mundos, morrer astros, sobre as ondas no mar de Vigo. De tudo ao meu amor serei atento, um João Evangelista com um pássaro misterioso, porque tudo vale a pena se alma não é pequena, para viver um grande amor. Só em Parságada tem de tudo, e lá acharei a estrela da manhã, seja no mar salgado, ó pescador da barca bela. Famigerado, os que leem o que escrevem, na dor lida sentem bem, igual a uma noite de sono na cama de seu Tomás da Bolandeira, uma felicidade clandestina. Silêncio e solidão, eu Severino, de tantas Marias, um eu sou.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Carnavalização


Tinha ido ao bloco de carnaval sem pensar na vida. Não eram planos que vinham a sua cabeça naquele momento, era a carne. Sim, instintos à flor da pele. Era o corpo que falava, tepidamente, ao som de um remix de marchinhas de carnaval. Alcoolizado, não mais respondia por sua identidade. Era um avatar abastecido pelo inconformismo de ser deixado nas vésperas do resultado do concurso para professor efetivo de uma universidade pública. Não eram as teorias botânicas que agora estavam em diálogo com a sua biologia? Não era um momento para teorizações. O passado o tinha feito mais teórico do que prático, um mártir do inconfessável, do silêncio e solidão, sem catarse. Entre os olhares, entre pessoas, um único sentimento brotava, a incompletude. Andava sem as pernas. Na verdade, o corpo era carregado pela justiça mórbida que o álcool lhe proporcionava. Ela, onde estava? Tentava reconhecer na morena que agora passava um rosto familiar. Por quanto tempo tinham vividos juntos? Simplesmente, o tinha deixado. O concurso tinha sido opção dela. Queria ele apenas continuar como assessor do pai nos assuntos administrativos, mas ela tinha ambição. Hoje terça, na sexta sairia o resultado final. Uma carreira promissora. Solidão. Depois o pós-doutorado no exterior. Solidão. Depois o reconhecimento, uma honraria. Solidão. As teorizações sobre um mundo objetivo, à ponta do cálculo, não resolveriam seu dilema. Mas o carnaval sim. A vida, naquele instante, dava um passo de frevo. Estava passista inóspito da inconclusão. Seu desejo era matá-la. Mas ele sabia que isso era impossível. Não teria em seu sangue o vestígio de cangaceiro que seu bisavô tinha deixado na família. Era justiça que se clamava. Mas onde ela está agora? Aquele verão deveria ter acabado na cama e não no telefonema infame. Olhos de catuaba. Na adolescência, naquele grupo de jovens na igreja. Não imaginava que isso pudesse ser diferente. Eram juras eternas. Ela se enganou, buscou dramatizar a felicidade ao lado de um rapaz de sonho pequeno. Tudo que ela queria era a glória dos altares. Modéstia. Vivia de pernas cobertas, blusas sem decote, e palavras de sabedoria. Afinal de contas, todo este teatro parou no telefone, há alguns segundos. Um ‘grand finale’. Numa noite de calor, às vésperas do ano novo, tinha feito o planejamento estratégico para uma grande empreiteira. Ao som estalado de beijos tinha desenhado a casa, batizado os filhos, marcado agendas para uma taça de espumante que sela as vidas e seus tesouros. Como era engenhosa com aqueles olhos de catuaba. O rapaz queria estar sóbrio de si mesmo, de seus sonhos pequenos, mas se deixou embriagar. Como é que ela pôde? Amor, você sabe que vou ser toda tua, né? Mas, por enquanto, modéstia. Um amor nos tempos da devassa alheia. Estava de pequena bolsa velada. Veste guardiã da vida. Sedas e um grosso oxford tapavam um motivo de alívio e cura das misérias humanas. Um réveillon transpassaria o ano velho teatralizado. Protagonista de fama, teria causado identificação em toda família, menos na irmã dele. Certa vez, a irmã tinha dito que ele saísse dessa. Só você que não vê, mano. A coisa dessa aí é outra. Podia ser tudo, podia ser outra mulher, mas que não fosse o dito ao telefone. Mas que outra? Dinheiro? Talvez pela irmã ser uma solteirona aos 35 anos, um caso com um homem casado, um incesto com ele na adolescência, uma vida de gerente de banco, livre de tudo, teria o direito de tecer os fios do seu destino. O rapaz não tinha tanto dinheiro, tinha um pouco de beleza e vários contatos com quem podia contar na necessidade. Era careta, mas tinha bons amigos. A irmã estava certa. Ela estava em outra. No telefone um alô despretensioso. No carnaval o alô ecoava ao som ritmado das marchinhas. Em cada grito, em cada gargalhada, um alô. Você está aí? Ansioso pelo resultado do concurso, disse que estava. Mas, durante o bloco ele não estava nem era. Pensou em quebrar a garrafa e cortar os pulsos. Viu a polícia. Seria preso ou morto pelo intento. Um grupo de bêbados entoavam a oração do abismo – “oh, meu bem não faça isso comigo não”. Uma lágrima. Estava à flor da pele com seus instintos, mas era nela que pensava. Corpo, som e droga entraram em êxtase sobre aquela existência de identidade perdida. Olha, quero que você escute bem. Ele escutava tudo naquele momento. No bloco, estava surdo. O som o tocava pela vibração, mas a audição estava perpetuada com uma única frase. Um mantra de eterna execução. Eu estou indo embora. O coração tinha parado. Um réveillon tinha feito a vida dançar, mas a música parecia que ia ser trocada, e o par desfeito. Lembrou-se de quando era criança. Na casa da tia passava as férias, sua prima o adorava. Brincavam até seus corpos não aguentarem mais e pedirem arrego no colo materno. Não eram primos naquelas férias. Pareciam uma pessoa só com a caixa da felicidade nos brinquedos. Não bonecas ou carros ou bolas, mas folhas. Brincavam com as folhas do quintal. Brincava com a menina por obediência à mãe. Vivia a personagem. No fim das férias, disse que precisava ir embora. A prima tornou-se lamento. Uma febre incorporou-se na pequena mulher. As férias tinham acabado para ele também com o telefonema. Era personagem também? Não, não poderia ser. Se tinha dado em corpo, sangue e alma. Não quis dizer antes, pois tinha medo que você fizesse besteira. No natal, tinha feito uma declaração de amor, em juras eternas à amada. A família se espantou. Até parecia que o amor era um causo na vida do jovem. Amava, mas, com reservas – era o que pensava o pai e a mãe. Aplausos por todos, descrença pelos produtores da prole. Mas, poderia ser verdade. Estou neste momento indo para o convento das irmãs consoladoras, darei entrada no noviciado. Choques entre o céu e a terra. Febre. O telefone desligou. Amor, amasso, amargo. Não estava no carnaval, estava na quaresma. Páscoa jamais. Um litro de vodca se esvaziava naquele momento. A praia a vista. Uma miragem. Um sopro. Um novo vigor: Armando caminhava sobre as águas. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Uma crônica sobre o posicionar-se



Identidade e subjetividade: ou seja, o indivíduo tem o direito de se expressar por si, de ser ele mesmo. Se será aceito ou não pela "outridade", "o fulano do lado", isso é outra questão.
Alteridade: o sujeito expressa-se de modo interdependente do outro. O "eu pessoal" para existir necessita do definição do "outro". Nesta questão para o sujeito ser ele, "o fulano do lado" tem de dizer isso, deve refletir sua existência. Se este "eu" é negado pelo outro, isso também é modo de confirmar que o "eu" existe. Se é afirmado, a mesma coisa.
Quando tomo decisões, excluo outras, corto vínculos, me posiciono, estou colocando em prática minha identidade, minha subjetividade. E como todo enunciado, "o que eu digo agora", sempre se destina a alguém exerço, nesta prática, minha alteridade.
Se sou ativista, filósofo, teólogo, professor, estudante, vagabundo, "nem-nem"... sempre estarei, com meus posicionamentos, me impondo. Se isso é positivo para o outro ou não; se isso faz crescer o outro ou não; se isso edifica ou não, temos aí questões de moral. Ou seja, se a jovem manceba decide expor sua intimidade, via face, colocando selfies feitas no espelho com a legenda - "sendo linda, sem ser vulgar"-, e você acho isso ridículo (juízo de valor, você deu uma opinião sobre...), ela, apenas exerce, naquele instante, sua subjetividade. Não é disso que trato aqui: juízo de valor. Trato, apenas, exclusivamente, do posicionar-se.
Assim, de modo conclusivo afirmo: deve-se alguém questionar, esbravejar, rasgar o verbo como o que não se concorda (subjetividade). Isso faz com que o "outro" seja lembrando (alteridade).
O que não pode ocorrer é pegar o outro pelo pescoço e arrochar até a morte. Pois você precisa dele para ser, e ponto final.
Sobre questões de moral, não toque na minha, que eu não toco na sua. Viva seu candomblé que eu vivo minha teologia da prosperidade. Cada um tem o céu e o inferno que quer ou merece. Abraços.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Desencanto


Os rios que emanavam águas luminosas
Se encheram de lágrimas que preencheram
As madrugadas de frio e escuridão
Onde era prateado, tornou-se turvo.
Um coração em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

As rimas não cantam mais
Não cantam mais palavras
O silêncio choroso, tornou-se.
As manhãs de alegrias
Experimentaram o eclipse tardio.
As músicas, os romances: desvario.
Um coração em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

O espelho se quebrou
Se quebrou a taça
Se derramou o vinho
Coração ruído em traça.
Onde está a luz e o encanto?
Onde está a plenitude,
A beleza e a felicidade?
Em tão pouca idade
Tive a atitude de amar,
E com palavras-rimas
A uma musa contemplar
Mas hoje, um coração está em destroço,
Tudo por um incisivo:
— não quero e não posso.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Olhos de esmeralda


Sobre uma pontada do coração
a vida ia se exaurindo...
até se chegar ao estado da plena solidão.

Ah! se esses olhos nunca mais fossem vistos...
Ah! se essa voz nunca mais fosse proferida...
como ficaria minha minha sorte, minha vida?
dos segundos eternos que minh'alma pena
lançando o alto voo do sentimento em ida
sobre o vislumbre procrastinado para crescer mais
em mim os teus olhos de esmeralda, virgem serena.

E este medo de perder-te, amada amiga;
Este medo do vulto que caleja o coração.
Medo que me toma e só cessa, se diga,
quando contemplo a lua cheia da tua aparição.

Ah! este olhar que acalma...
Olhos que abrasam a alma
em sentimento doce e terno.
Não saiam de mim, se diga,
pura, modesta, amada amiga
o espelho que reflete tua alma.


(Olavo Barreto)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Criação


De repente glosa
De repente rima
De repente sina
De repente amor

- uma lânguida espada transpassa o corpo dourado das horas benditas.

- em um relance de luz eterna entoa-se o salmo responsorial das obscuridades.

- cai uma gota de sabor na brancura colada na imensidão do quarto.

- no silêncio um relógio palpita.